Fake News Corais - 7 mentiras que pregam sobre canto coral

Tempo de leitura:

O fenômeno das fake news continua polêmico. Escrevi um artigo sobre as fake news musicais há algum tempo atrás dizendo como isso sempre existiu em música.
Hoje o assunto são as fake news corais.

Voz feia

Muita gente acha que não deve cantar em um coral pois considera a própria voz feia. Há pessoas que até desestimulam outras a cantar pelo mesmo motivo.
Acontece que a atividade coral não necessita de belas vozes, pois busca uma mistura entre os formantes vocais, onde, até as vozes consideradas feias são bem vindas, e contribuem de maneira positiva para a sonoridade do grupo.
Mais vale um grupo de vozes feias coeso do que um conjunto desequilibrado de lindas vozes. O que importa no canto coral é a unidade. Portanto, se você considera sua voz feia demais para cantar e isso lhe inibe de qualquer apresentação, o coral é o seu lugar.

Coral é "só" pra cantar

Correto, coral é pra cantar. Entretanto, em todos os tipos de grupos, na verdade, coral também é pra ouvir. O hábito de cantar no momento de ouvir é extremamente pernicioso, pois o ouvido interno é mais forte que o externo. Se todos os cantores fossem ao coral levando em conta que ouvir é tão (ou mais) importante quanto cantar, a sonoridade dos grupos seria muito melhor. Nenhum grupo consegue uma boa unidade sonora se não estiver se ouvindo bem. Da mesma forma, nenhum grupo consegue ouvir o exemplo sonoro do regente se não estiver com os ouvidos atentos e focados apenas no efeito apresentado. Quem canta ao mesmo tempo em que o exemplo está sendo exposto, gera uma perturbação na compreensão do som, não apenas para si próprio, mas também para os outros cantores do grupo.

Reprovação na classificação vocal

Um dos maiores absurdos que já ouvi foi quando uma cantora saiu feliz da vida de uma audição onde o maestro a classificou como soprano. As palavras dela foram as seguintes: "Ufa, achei que ele iria me reprovar e me colocar no contralto".
Já vi muita gente saindo da classificação vocal chateada por não ter o tipo vocal que gostaria, mas nunca vi alguém se sentir reprovado por não ter determinada voz. Esse pensamento é totalmente anti-coral, pois, parte do princípio de que certos tipos vocais são passíveis de reprovação ou estão em posições menos favorecidas, como se fossem inferiores aos outros. Isso vai de encontro aos principais pressupostos do canto coral que visa, na realidade, a igualdade de posições. Hierarquizar as vozes tira toda a essência cooperativa do canto coral e coloca as pessoas em níveis de desigualdade. No canto coral cada voz é importante, seja no formante sonoro, seja na constituição de cada naipe.

Conhecimentos teórico-musicais são desnecessários

Esse é um grande fake que atormenta todo o maestro. Sempre digo que um coro que não sabe música não afina. A afinação está totalmente condicionada às questões acústicas e harmônicas de uma música. Um coro que não compreende minimamente esses aspectos não tem o aparato necessário para afinar.
No canto à capela esse aspecto fica ainda mais dramático. Certa vez, eu estava enlouquecido em um ensaio tentando fazer um grupo afinar, até que um colega me chamou no canto e disse: "Rafael, não adianta. Eles não sabem!". Ou seja, eu poderia repetir um milhão de vezes que o grupo não iria conseguir fazer, pois, é o conhecimento musical o que faria aquilo afinar, não a sensibilidade e a boa vontade do grupo.
Muitos me perguntam como consigo retirar determinadas sonoridades dos meus coros. Eu não atribuo isso apenas ao meu trabalho, mas também à consciência que muitos dos meus cantores obtiveram da importância do conhecimento musical. O som de um coro não é bonito somente pelos aspectos natos, mas por ser devidamente afinado. Por trás de um belo concerto há muito trabalho técnico. Portanto, se deseja ser um bom cantor, ingresse em aulas de música já! Mas se prefere ser um cantor medíocre, mantenha-se acreditando nesta fake.

Cantar melodias de outras vozes podem acarretar doenças no aparelho fonador

Isso é uma meia-fake. Não é porque você cantou um trechinho de outra voz que terá uma doença ou ficará afônico no dia seguinte. As doenças do aparelho fonador estão relacionadas a hábitos de duração muito mais longa do que um pequeno trecho que o cantor resolveu cantar de uma música.
Normalmente, quem corre este risco são os cantores iniciantes que não sabem bem como colocar a voz e acabam fazendo algumas estripulias que, se o regente não observar cuidadosamente, podem causar danos. No entanto, do ponto de vista da extensão vocal, os grupos iniciantes normalmente trabalham na região mediana, portanto, na maioria dos casos, não haverá nenhum problema cantar a voz de outro naipe.
O que acontece muito com iniciantes são as mulheres cantarem uma oitava abaixo, o que faz o som  sumir, por estar numa região de onde não sai mais nada; e os homens cantarem a linha do soprano, muitas vezes, inclusive com falsete. Esses fatores não necessariamente afetam o aparelho fonador, pois, estão mais relacionados à maneira como o cantor faz. De qualquer forma, são hábitos que precisam de atenção constante, pois, a maneira como executam pode machucar.
Uma mulher de voz grave cantar a linha do tenor não é problema nenhum, se a emissão estiver sendo feita de maneira segura e correta; assim como um homem cantar a voz de um contralto ou um soprano com falsete. O importante é manter um acompanhamento com aulas de canto, ou de técnica vocal, e visitar regularmente o otorrinolaringologista e, na necessidade de terapias vocais, ser acompanhado por um fonoaudiólogo.

Vozes graves devem sempre cantar notas graves e vozes agudas notas agudas

O limiar soprano-tenor, contralto-baixo se refere às tessituras da voz. O soprano e o tenor alcançam as notas mais agudas da voz e os baixos e contraltos as mais graves. No entanto, isso não significa que baixos e contraltos devam grunhir o ensaio inteiro e que os sopranos e tenores devam berrar e apitar.
Todas as tessituras possuem sua regiões graves, médias e agudas e os compositores gostam de explorar todas as possibilidades. O timbre de um tenor no agudo é muito mais brilhante do que o de um contralto no grave, no entanto, esses registros muitas vezes se encontram e é bem comum ver essas vozes cruzando como um recurso onde o compositor prefere que certa nota seja evidenciada pelo brilho de determinado naipe. As regiões brilhantes de cada voz determinam isso. Um baixo cantando um ré3 terá muito mais brilho do que um tenor que, nessa nota, nem iniciou ainda a passagem da voz. Essas escolhas, na verdade, mostram o quanto um compositor quer evidenciar determinado timbre na música.
A classificação vocal não determina que você cante apenas no grave ou no agudo, mas mostra as características do seu timbre vocal tanto no agudo como no grave. É óbvio que os tenores e sopranos alcançam notas mais agudas que baixos e contraltos, assim como os baixos e contraltos alcançam notas mais graves, mas isso não significa que essas vozes só fiquem em uma região, o que na realidade pode ser danoso por ser desconfortável e antimusical, pois não explora as diversas possibilidades da voz.

Canto coral descoloca a voz

Já ouvi esse absurdo de cantores profissionais. Não faz nenhum sentido prático, visto que a colocação vocal não tem a ver  com os agrupamentos que o cantor integra. Na verdade, o bom cantor é versátil e sabe usar sua voz em qualquer ambiente.
Normalmente, essas afirmativas partem de pessoas que tem algum preconceito com o canto coral, possuem uma dose de estrelismo e egoísmo (só canta se for solista), ou tem preguiça mesmo de ir ao ensaio, e usa essa desculpa esfarrapada.
Pensando no mercado específico do canto lírico, essa posição é um pouco limitante, visto que, normalmente, os ensejos partem de maestros que são regentes de corais. Estar junto com eles faz com que sua voz seja mais ouvida e que oportunidades surjam. Se posicionar de maneira colaborativa em um coral pode possibilitar essas oportunidades. Eu mesmo, como regente, salvo ocasiões onde não tenho poder de escolha, prefiro que um cantor do meu coro faça solos a chamar alguém de fora. Não por não valorizar o solista, mas para evidenciar a qualidade do cantor do meu coro que trabalha,  a cada ensaio, para melhorar.
Além disso, cada ensaio é um aprendizado. Observar a interpretação de diferentes maestros pode ser muito rico para a cultura musical de um cantor.
Por último, observe a carreira de um grande cantor. Popular ou clássico, normalmente, há um coral como trabalho de base, muitos desde a infância. Portanto, coral não atrapalha, na verdade cria bases, oportunidades e só pode tornar um cantor melhor.

Gostou da postagem? Deixe um comentário!

Leia mais:

Comentários

  1. Parabéns por mais esse trabalho Professo,esclarecedor e direto. Confesso que acreditava em alguns desses pontos, mas o conhecimento é libertador.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Deixe seu comentário

Inscreva-se

Postagens mais visitadas deste blog

20 dicas de como estudar o repertório do seu coral