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Mário de Andrade e o canto coral: a voz da identidade nacional

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Quando se fala em Mário de Andrade, a maioria das pessoas pensa em Macunaíma . Mas Mário era, antes de tudo, professor de piano, um músico profissional que escrevia por paixão. Viveu de música e escreveu quase como hobby. Esse detalhe importa, porque foi do lugar de músico que ele pensou o que seria, de verdade, uma música brasileira. E, nesse pensamento, o canto coral ocupa um lugar central. O Brasil que "pega emprestado": Mário de Andrade e a antropofagia Em 1928, Mário publicou o Ensaio sobre a Música Brasileira . No mesmo ano, Oswald de Andrade lançava o Manifesto Antropofágico, a ideia de que o Brasil "devora" a cultura do mundo e a transforma em algo seu. Mário enxergou algo parecido: um país jovem, formado por empréstimos culturais, que consumiria de tudo. Ele próprio usa a expressão "pegar emprestado". Mas Mário foi além. Para ele, nos países em que a cultura chega de empréstimo, a arte passa por três fases: A fase da tese nacional : o artis...

Nem tudo que parece IA em música é IA

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De vez em quando recebo comentários questionando o uso de "IA" nos exemplos musicais que produzo — e é sempre a mesma ressalva: que teria sido melhor com "pessoas reais". Vale um esclarecimento, porque a maioria desses exemplos não usa IA nenhuma: usa síntese de voz. São coisas bem diferentes, e a confusão entre elas diz muito sobre como o debate sobre tecnologia na música ainda está mal colocado.  Quando demonstro algo como Luar do Sertão no post Como funciona o canto coral , por exemplo, o áudio é feito com sintetizador de voz — um recurso pedagógico para dar precisão de notas, ritmo e articulação de texto. A sonoridade é propositalmente mais neutra justamente para que o aluno não tente "imitar" a emissão de outro cantor, e sim se concentre na afinação, no ritmo e na palavra, para depois usar a própria voz. Mas algumas pessoas sentem isso como "robótico". Em exemplos assim, quando faço em vídeo, a IA costuma entrar só na geração de imagens e n...

A Teoria do Canto Sertanejo

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O título parece pretensioso, ou pior, parece que vou falar de teoria musical pura: intervalos, consonâncias, inversão intervalar. E vou, sim. Mas o assunto de verdade aqui é outro: como se estruturam as vozes no arranjo vocal da música sertaneja, e por que esse é, provavelmente, o efeito harmônico mais elementar que um cantor pode aprender — perdendo talvez apenas para a escuta do baixo dos acordes. Se você canta e nunca aprendeu a "abrir voz", ainda é um eterno iniciante. Não é ofensa, é diagnóstico. O que é um intervalo Intervalo é a distância entre uma nota e outra. Do dó ao mi, terça. Do dó ao fá, quarta. Do dó ao sol, quinta. Do dó ao lá, sexta. E assim por diante, até a oitava, onde o dó se repete, e a nona, quando o ciclo recomeça. Terças e sextas são consonâncias imperfeitas: continuam soando como consonância mesmo quando o intervalo é maior ou menor, mesmo com aquela "diferençazinha" para cima ou para baixo que a gente tolera no ouvido. Já ...

O Anjo de Roma e o mal-entendido entre gostar e saber

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O Anjo de Roma e o mal-entendido entre gostar e saber: o que a voz de Moreschi nos ensina sobre estética e técnica Há alguns dias, num vídeo em que analiso a voz de Alessandro Moreschi — o "Anjo de Roma", último castrato da história e o único registrado em gravação para que pudéssemos, mais de um século depois, ouvi-lo — recebi um comentário que resumia bem uma reação comum a essa gravação: estranhamento, repulsa, e a conclusão de que aquela voz não tinha valor técnico algum, quase como se qualquer pessoa sem preparo fosse capaz de produzir o mesmo resultado. É uma reação compreensível. Também é, tecnicamente, um equívoco. E é esse equívoco — comum, recorrente, quase estrutural na forma como ouvimos música — que quero desenvolver aqui. O estranhamento tem explicação histórica Antes de qualquer coisa, vale reconhecer: a estranheza diante da voz de Moreschi não é ir...

Coralizando tem novidade: nasce o Postcast

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Depois de alguns anos escrevendo no blog Aprenda a Cantar com Rafael Caldas , cheguei a uma constatação simples: sou a única pessoa produzindo conteúdo do Choir at Home — texto, vídeo, áudio, arranjo, edição — e, para que isso seja sustentável no longo prazo, cada formato precisa se alimentar do outro, em vez de competir por tempo e atenção. Foi dessa necessidade que nasceu o Postcast : um novo formato de episódio dentro do Coralizando , nosso podcast. O que é o Postcast A ideia é simples de explicar e trabalhosa de sustentar: os artigos do blog passam a existir também como áudio nativo. Eu mesmo leio o texto na íntegra e o resultado vira um episódio do Coralizando — com abertura e encerramento próprios — publicado no Spotify, nos principais agregadores e, em vídeo, numa playlist dedicada no YouTube. No blog, um player do Spotify aparece logo no topo do artigo, antes do primeiro parágrafo, para quem preferir ouvir a ler. Por que fazer isso Não é só uma quest...