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Mostrando postagens com o rótulo ARTIGOS

Migalhas Musicais: Poder simbólico (Bourdieu) explica os projetos sociais de música

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  Publiquei recentemente no canal do YouTube um vídeo chamado "O lado sombrio dos projetos sociais de música" , e um comentário na discussão me fez perceber que faltava um conceito sociológico para amarrar melhor o argumento. Esse comentário — que agradeço, porque tocou exatamente no ponto certo — me motivou a escrever este post. Vou usar o poder simbólico , de Pierre Bourdieu, como ferramenta para explicar por que os projetos sociais de música, por mais bem-intencionados que sejam seus idealizadores, acabam reproduzindo uma perversidade que não tem relação nenhuma com música. O que é poder simbólico Pierre Bourdieu chamava de poder simbólico a capacidade de fazer ver e fazer crer: o poder de impor uma visão de mundo, uma hierarquia de valores, um sistema de distinções, sem que isso pareça imposição — parece só "como as coisas são". Diferente do poder econômico ou político bruto, o poder simbólico opera pelo reconhecimento: ele precisa que os dominado...

Por que sua voz cansa nos agudos

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Se sua voz sai rouca, tensa ou visivelmente cansada depois de cantar um trecho agudo, o problema quase nunca é o agudo em si — é o caminho que você faz até chegar nele. A causa mais comum é pesar no salto: empurrar o som, tensionar o pescoço, forçar a nota a subir (ou descer) sem dar o espaço interno que ela precisa. O resultado é cansaço, afinação prejudicada e, com o tempo, desgaste real da voz. Neste artigo eu explico, de forma mais detalhada e com dois exercícios práticos, além do vídeo abaixo sobre como lidar com saltos — tanto do agudo para o grave quanto do grave para o agudo — sem pesar a voz. Uma das causas do cansaço: o salto para baixo mal feito O salto do agudo para o grave é, tecnicamente, o mais fácil de fazer — mas é exatamente por isso que ele costuma ser mal feito. Como parece "fácil", a tendência natural é relaxar demais ou, pelo contrário, se sentir "poderoso" demais ao alcançar graves e pesar nele. Se você "olha para o céu...

Céu de Santo Amaro: o que um coração de Flávio Venturini revela sobre como se escreve a história de uma música

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Há pouco tempo, o próprio Flávio Venturini comentou um vídeo meu contando a história de "Céu de Santo Amaro". Três corações. No vídeo, contei como Flávio Venturini pegou a melodia do Arioso de Bach e escreveu a letra inspirado numa descrição que o Caetano Veloso fazia do céu da sua cidade natal, Santo Amaro. Uma música que muita gente atribui ao Caetano, mas que na verdade nasce como criação do Flávio — um caso, entre tantos, de contrafactum: melodia erudita preexistente ganhando letra nova em português, prática comum entre compositores brasileiros das décadas de 1930 a 1950.  Minha primeira reação ao comentário foi lê-lo como uma espécie de validação: se a genealogia da música estivesse errada, ele teria corrigido — ou nem comentado, certo? Mas essa leitura é generosa demais. Um coração não confirma nenhum dado específico. Pode significar "gostei de ver essa homenagem" tanto quanto "sim, é exatamente isso" — sem que o Flávio tenha necessariamente coteja...

Salto melódico ascendente: o maior culpado da voz de taquara rachada

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Você já cantou uma frase tranquila, resolvido, e de repente, bem na hora de subir uma nota, sua voz "quebrou"? Saiu aquele som apertado, meio rouco, estridente, penetrante, sem nenhuma elegância — e você pensou: "pronto, minha voz é de taquara rachada, eu não nasci pra cantar" . Calma. Quase sempre isso não é uma questão de dom. É uma questão de técnica no salto melódico ascendente , saindo de uma nota grave em direção à aguda. Veja no vídeo abaixo esse problema acontecendo — e sendo resolvido — na prática: Por que o salto é o momento mais delicado do canto O salto é um dos momentos mais exigentes de qualquer melodia. Quando a voz sobe de uma nota para outra distante, o espaço interno muda e o registro da voz , muitas vezes, muda junto. Se você trata esse momento como se fosse só "subir o volume", "empurrar mais o ar" ou "fazer força", a voz cai na garganta, aperta, e nasce aquele som de taquara rachada que tanta gente...

O código secreto da música: por que só "quem entende" pode falar sobre ela?

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O artigo de Philip Tagg, "Analyzing Popular Music: Theory, Method and Practice" , coloca em palavras uma inquietação que carrego há anos: o vocabulário que usamos para falar de música é um portão fechado, e a chave custa caro. Tagg não é o único a apontar isso. Philip Ewell, em seu livro sobre teoria musical , vai além e mostra como toda a tradição da "music theory" ocidental carrega não só um viés eurocêntrico, mas raízes racistas na forma como se constrói cânone, repertório e critério de valor. O artigo de Tagg é mais modesto no escopo, mas talvez chegue mais longe num ponto específico: ele mostra, semioticamente, como estamos enjaulados numa forma europeia e elitizada de comunicar sobre som. Uma língua que poucos podem comprar A educação musical formal ensina uma espécie de língua codificada — e essa língua tem mensalidade. Ela exige anos de teoria, professor particular, instrumento, tempo livre. Isso já é, por si só, uma barreira de classe. Mas o...

Forma Canção: Entenda Refrão, Estrofe e Ponte

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Muita gente usa "música" e "canção" como se fossem sinônimos. Não são. Canção é um gênero específico de música cantada, com uma forma própria — e é sobre essa forma, feita de estrofe e refrão (por vezes, ponte, pré-refrão, pós-refrão, interlúdio, dentre outros), que este artigo trata. O vídeo que complementa este texto mostra na prática como isso soa; aqui vamos destrinchar cada parte. Canção não é sinônimo de música Tratar canção como sinônimo de música é um reducionismo grave, tanto do ponto de vista musical quanto literário. A literatura admite formas variadas mesmo para letras cantadas, e a música — cantada ou não — vai muito além da estrutura de canção. O Hallelujah de Haendel, por exemplo, é um fugato polifônico. Os cânones seguem a mesma lógica. Ou seja: nem toda música cantada é canção, e a canção é apenas um recorte dentro do universo literário-musical. De onde vem a estrutura de estrofe e refrão A estrutura de estrofe e refrão, típica da ...

BPM não é subdivisão: o que o Créu e a Remada Viking ensinam sobre tempo musica

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Um comentário recebido no vídeo trouxe uma provocação boa demais para ficar só na caixinha de respostas. Aqui, a mesma discussão ganha remo, pedal e partitura tocável. Depois do vídeo sobre a Remada Viking e o Créu, recebi um comentário ótimo relacionando a discussão com a dança: será que, do ponto de vista do movimento corporal, subdividir o tempo não seria, na prática, o mesmo que acelerar? A resposta rendeu uma analogia náutica que vale a pena esticar — com barco, remo, marcha de bicicleta e código de partitura. Duas grandezas, um mesmo relógio Música é a arte de organizar som no tempo, e esse tempo tem duas réguas diferentes que costumam ser confundidas. Uma é o BPM — batidas por minuto, a velocidade do pulso. A outra é a divisão rítmica — como cada som individual é fatiado dentro de cada batida. Subir o BPM muda a duração de cada batida. Subdividir não muda a duração de nada: só decide quantos sons cabem dentro do espaço que já existia. É exatamente esse mal-en...

Vogais Nasais no Canto

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Vogais Nasais no Canto: Por Que São Tão Difíceis de Cantar (e Como Treinar a Sua) Se você já tentou cantar uma vogal nasal — aquele "ã" de "canta", o "õ" "ônibus" o "ẽ" de "dente" — e sentiu que a voz "fecha", perde projeção ou fica presa no nariz, você não está sozinho. As vogais nasais são um dos maiores desafios técnicos do canto em português, e é justamente sobre isso que fala o vídeo abaixo, complementado por este artigo com a explicação técnica completa e um exercício prático para você treinar agora mesmo. O Que São as Vogais Nasais? O português brasileiro é uma das línguas mais nasaladas do mundo, e isso tem consequência direta para quem canta. Diferente das vogais orais (a, e, i, o, u), nas quais o ar sai exclusivamente pela boca, as vogais nasais são produzidas com a passagem simultânea de ar pela boca e pelo nariz. Isso acontece porque o véu palatino (ou palato mole) — a parte móvel e...

Ritornelo na Partitura de Forma Simples e Sem Erros

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Se você está começando a ler partituras, é muito comum se deparar com alguns símbolos que parecem confundir a direção da música. Um dos maiores vilões dos iniciantes é, sem dúvida, o ritornelo . Você já se perdeu no meio de uma música sem saber exatamente para onde voltar? Neste artigo, você vai entender de uma vez por todas o que significa esse símbolo, como identificar o ritornelo frontal e o traseiro, e como utilizá-lo na prática. Para complementar este aprendizado e ver a explicação em tempo real direto na partitura, assista ao vídeo explicativo abaixo: O que é Ritornelo e Para Que Ele Serve? Ao contrário do que muita gente pensa, a palavra ritornelo não significa simplesmente "retorno". Em italiano, ela se traduz como refrão . Na história da música, os compositores utilizavam esse termo para indicar as seções que se repetiam ao longo da composição. Na grafia musical moderna, o ritornelo é uma indicação visual que economiza espaço na partitura. Em vez ...

3 sinais práticos de que você é iniciante no canto

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Ter voz bonita não é o mesmo que ter técnica vocal. Entenda a diferença — e por onde começar de verdade. Existe um mal-entendido muito comum entre quem está começando a cantar: a ideia de que ter uma voz bonita já é suficiente . Isso não é culpa de ninguém — nossa cultura trata o canto como um dom natural, algo que você tem ou não tem. Mas a realidade é bem diferente. Cantar com beleza e cantar com técnica são coisas relacionadas, mas não idênticas. E entender essa distinção é o primeiro passo para qualquer cantora ou cantor iniciante. A seguir, três sinais que mostram que você ainda está no início da jornada vocal — e por que isso é completamente normal. Sinal 1 — Você ainda não conhece sua extensão e tessitura vocal A extensão vocal é o conjunto de todas as notas que sua voz consegue produzir — do grave mais profundo ao agudo mais extremo. Já a tessitura é a faixa em que você canta com conforto, qualidade e sustentação. Em outras palavras: a extensão é o limite do...

EaD em música: quem abandona o curso — o aluno ou a instituição?

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Quando um aluno abandona um curso de música a distância, a explicação que costuma aparecer primeiro é a mais cômoda: falta de interesse, falta de disciplina, "EaD não funciona para música". Esse diagnóstico, repetido como mantra em grupos de professores e coordenadores pedagógicos, tem um problema fundamental — e uma pesquisa acadêmica o expõe com precisão. O estudo de Lilian Branco, Elaine Conte e Adilson Habowski , publicado na revista Avaliação (Unicamp/Uniso, 2020), mapeou 68 dissertações e teses brasileiras sobre evasão no ensino a distância produzidas entre 2007 e 2017. A conclusão é inequívoca: "percebemos um distanciamento por parte das instituições formadoras em relação aos problemas da evasão, o que gera uma diminuição ou isenção de responsabilidades, tendo em vista a tendência em atribuir suas causas a dimensões psicológicas do estudante". Em outras palavras: a academia pesquisou, os dados chegaram, e eles apontam para as instituições — não...