Migalhas Musicais: Poder simbólico (Bourdieu) explica os projetos sociais de música
Publiquei recentemente no canal do YouTube um vídeo chamado "O lado sombrio dos projetos sociais de música", e um comentário na discussão me fez perceber que faltava um conceito sociológico para amarrar melhor o argumento. Esse comentário — que agradeço, porque tocou exatamente no ponto certo — me motivou a escrever este post. Vou usar o poder simbólico, de Pierre Bourdieu, como ferramenta para explicar por que os projetos sociais de música, por mais bem-intencionados que sejam seus idealizadores, acabam reproduzindo uma perversidade que não tem relação nenhuma com música.
O que é poder simbólico
Pierre Bourdieu chamava de poder simbólico a capacidade de fazer ver e fazer crer: o poder de impor uma visão de mundo, uma hierarquia de valores, um sistema de distinções, sem que isso pareça imposição — parece só "como as coisas são". Diferente do poder econômico ou político bruto, o poder simbólico opera pelo reconhecimento: ele precisa que os dominados também acreditem naquela hierarquia de gostos, de bens, de práticas, para que ela funcione. Um bem cultural — um instrumento, um repertório, um espaço de convívio — vale o que vale não por qualidade intrínseca, mas porque um grupo dominante consegue fazer esse valor ser reconhecido como legítimo por todos, inclusive por quem está de fora dele.
O detalhe crucial, que Bourdieu também descreve através do conceito de distinção, é que esse valor não é fixo. No momento em que um bem cultural começa a ser acessado por quem não pertence à elite, ele deixa de servir como marcador exclusivo de status para essa elite. E a elite, para continuar se diferenciando, precisa se deslocar para outra fronteira — de preferência uma que o resto da sociedade não consiga alcançar tão cedo.
A ilusão da migalha generosa
É comum pensar que projetos sociais de música oferecem à criança pobre um universo que, de outra forma, seria reservado ao filho do rico: o instrumento, o repertório de concerto, as viagens, as visitas a museus, o hábito de frequentar teatros. E, de fato, isso amplia o horizonte existencial de um jovem periférico de um jeito que nenhuma política pública consegue medir direito.
O problema não está no valor desse acesso — está em como ele é lido socialmente. Porque essas "migalhas" nunca são exatamente aquilo que a elite ainda considera valioso. São sobras. São práticas em decadência dentro do próprio mundo dos ricos, cedidas justamente porque já não cumprem mais a função de diferenciar ninguém.
O caso do Theatro Municipal
O Theatro Municipal do Rio de Janeiro é um exemplo perfeito. Ir ao Municipal, depois à missa na Candelária, depois almoçar num restaurante chique em Ipanema — isso ainda é hábito de gente com dinheiro, mas é um hábito cada vez mais decadente, ofuscado pela lógica de consumo que os influenciadores digitais impuseram. O ricaço de verdade não está mais ali. Ele anda de submarino de águas profundas, de jato executivo, investe em turismo espacial. Talvez a mãe ou a avó dele ainda frequente o teatro, e ele até acompanhe por hábito familiar — mas não é isso que hoje lhe garante status de rico, porque esse espaço já não exerce mais o mesmo poder simbólico.
É por isso que a elite "deixa" democratizar o acesso ao Municipal: porque ela já achou outra forma de mostrar que manda. E o motivo de espaços como esse terem sido tão centrais historicamente nunca teve muita relação com o gênero musical em si. O Theatro Municipal é cheio de antessalas luxuosas cuja única função é permitir que os ricos conversem, negociem, se articulem — muitos sequer assistem aos concertos, estão ali porque é um território neutro, onde ninguém vê seus acordos e inescrupulosidades. A arquitetura desses teatros, aliás, sempre reserva saídas discretas: para levar amantes sem ser visto, para sair de negociações às escondidas. Essa é a função real desse tipo de espaço para quem detém poder. Estar num Municipal ou num camarote de micareta é, estruturalmente, indiferente. A música é o bobo da corte que distrai — e quanto mais absurdo o truque que precisa ser escondido, maior a distração necessária.
Se fosse mesmo sobre dar acesso a um bem valioso...
Se os projetos sociais realmente entregassem "aquilo que só os ricos têm" no sentido em que a elite ainda reconhece valor, as maiores tendências de streaming seriam de música de concerto — e estão longe disso. Não por falta de conhecimento gerado por esses projetos, mas por absoluta falta de interesse do resto da sociedade, porque esse repertório simplesmente não exerce mais nenhum poder simbólico coletivo.
Quem quiser observar onde o poder de fato circula hoje na música brasileira precisa olhar para a política: prefeituras que despejam dinheiro público sem licitação em shows de sertanejo, sob justificativa de "notória relevância" — relevância forjada por uma mídia historicamente curvada aos interesses de quem compra espaço publicitário e, em muitos casos, é dona de emissoras inteiras. Não tem nada a ver com oferecer algo ao pobre. Tem a ver com financiar o que traz retorno, ainda que esse retorno seja apenas distração em massa.
O mesmo padrão se repete nas leis de incentivo cultural brasileiras, profundamente marcadas por essa lógica: produtoras com mais estrutura têm muito mais acesso a esse dinheiro, porque dependem de patrocinadores com lucro real a deduzir — o pequeno empresário, que sonega, não entra nesse jogo. Só quem já tem poder econômico consegue converter isso em poder simbólico via patrocínio cultural. E o viés neoliberal dessas leis — seja na Rouanet, seja em incentivos via ICMS ou ISS — faz com que seja a própria empresa financiadora quem decide para onde vai o dinheiro público, recebendo em troca a associação simbólica com os artistas que escolhe apadrinhar. O que sobra para os projetos sociais, normalmente via fundos de cultura e editais, é o resíduo — porque a exigência de contrapartida sobre o dinheiro captado por dedução fiscal é praticamente simbólica também, no pior sentido da palavra: serve só para distrair do que realmente importa, que é a concentração de recursos em torno de quem já tem padrinho rico.
Nunca foi sobre o gênero musical. É sobre o consumo e o poder que ele sinaliza. Uma bolsa de uma loja popular cumpre exatamente a mesma função prática de uma bolsa de grife — a grife só carrega mais poder simbólico. Com a música vale a mesma lógica.
O mesmo mecanismo, em outro território
Esse raciocínio se aplica igualmente a um tema que já explorei aqui no blog, em "Mulheres podem cantar, mas não podem mandar". Mulheres vêm ocupando cada vez mais espaços de liderança no mundo dos concertos — sendo maestras, por exemplo — não exatamente porque a sociedade decidiu reconhecer seu mérito (que sempre existiu), mas porque esse é, cada vez mais, um espaço que a elite já não valoriza como campo de disputa de status. O poder simbólico se deslocou para outro lugar, então "tanto faz" quem ocupa a regência. Elas ocupam, com todo o mérito, mas o impacto social dessa conquista acaba sendo menor do que seria se aquele espaço ainda concentrasse poder simbólico relevante.
Migalhas não são democratização
Isso não é um convite ao cinismo em relação aos projetos sociais de música — é um convite a olhar com mais rigor para o que eles de fato fazem e o que a sociedade projeta sobre eles. Ampliar o horizonte de um jovem periférico tem valor real, incalculável até. Mas confundir esse valor com uma suposta democratização de bens que a elite "generosamente" deixa vazar é ingenuidade. O que vaza são as sobras — práticas em decadência, cedidas justamente porque já não cumprem mais função nenhuma de distinção para quem sempre deteve o poder.
Música que dialoga com o mundo
É justamente para discutir esse tipo de questão — a música não isolada da sociedade, mas atravessada por ela — que existe nosso canal no YouTube. Lá continuamos essa conversa em vídeo, com mais análises sobre música e sociedade. Vale a pena conferir: youtube.com/@choirathome.
E foi justamente para aprofundar esse tipo de diálogo que criei o Choir at Home. Muito mais do que um coral, pensei em um espaço de convivência e diálogo onde, a partir da música, falamos de sociedade, de musicologia, e usamos as ferramentas digitais para ir além das apresentações. Não nos fechamos em ensaiar e cantar: aprendemos música de forma global, em diálogo constante com os contextos em que ela — e nós — estamos inseridos. Para conhecer, acesse choirathome.com.br.

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