Mulheres Podem Cantar, Mas Não Podem Mandar
Mulheres Podem Cantar, Mas Não Podem Mandar: Gênero e Poder nos Corais Profissionais do Brasil
Todo ano, quando chega o Dia Internacional da Mulher, meu costume é homenagear a data fazendo uma obra de compositora. Este ano não pude — e então escrevi este artigo. Uma opinião, nada mais que isso. Mas uma opinião que precisa ser dita, porque a autocensura é uma das piores coisas que existem, especialmente na academia, onde o silêncio calculado ajuda o status quo a se manter intacto.
O ponto de partida é o artigo de Maria Rúbia de Moraes Andreta, intitulado "Mulheres e perspectiva de gênero: análise do repertório de coros profissionais do Sudeste do Brasil" O levantamento de dados feito por Rúbia é fundamental. Sem ele, o que vem a seguir seria apenas impressão — e impressão, por mais afiada que seja, não sustenta argumento. São os números e a sistematização da pesquisa que permitem transformar indignação em crítica. É disso que a área precisa: dados que deem coragem a quem quer falar.
Vale deixar claro: o problema não é o canto coral. Como prática de educação musical, o canto coral tem valor inegável — é uma das ferramentas mais democráticas e abrangentes de formação musical que existem, com toda a riqueza e as idiossincrasias que lhe são próprias. O que está em questão aqui são os aparelhos institucionais que o capturam e as relações de poder que esses aparelhos reproduzem — especialmente no que diz respeito ao lugar das mulheres dentro deles e na sociedade mais ampla que os sustenta.
O Lugar Reservado às Mulheres no Coral
Há um detalhe que a indignação apressada costuma deixar passar: as mulheres não estão ausentes dos corais. Estão presentes em grande número — como cantoras. São maioria na maior parte dos conjuntos corais. O problema é que o canto, historicamente, foi a função que se reservou a elas com precisão cirúrgica: executar, não criar; interpretar, não conduzir; servir à obra, nunca assinar a partitura.
É a divisão sexual do trabalho transposta para o palco. A mulher pode usar a voz — mas quem escreve o que ela vai cantar, quem decide como será interpretado, quem ergue a batuta e dita o tempo, quem ocupa os cargos de prestígio e de liderança, esse sempre foi o homem. Cantar, nesse contexto, não é protagonismo. É obediência com roupagem artística.
E aqui está o nó mais perverso: ao ocupar esse lugar de cantora dentro dessas instituições, a mulher não subverte nada — ela reforça. Ela empresta corpo e voz a uma estrutura que a inclui como intérprete e a exclui como autora. A presença feminina nos corais, quando restrita a esse papel, é parte do funcionamento do sistema, não um sinal de abertura dele.
Minoria onde Importa: O Que os Dados Revelam sobre Compositoras, Arranjadoras e Regentes
A pesquisa de Rúbia expõe com clareza o quanto é pequena a atuação das mulheres nos principais organismos corais da região Sudeste do Brasil nos cargos que de fato conferem poder — e, sendo o Sudeste o centro cultural do país, é razoável supor que o retrato se repita, com variações, pelo Brasil afora. Estamos falando de espaços como o Coral Paulistano, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e o Coro da OSESP. Instituições de prestígio, financiadas com dinheiro público, cujas programações seguem sendo dominadas por compositores, arranjadores e regentes do sexo masculino.
A primeira reação a isso é, e deve ser, indignação. Há uma injustiça óbvia em mulheres não obterem reconhecimento em carreiras onde homens historicamente logram mais êxito — não por mérito, mas por estrutura. Mas parar na indignação seria ignorar o que há de mais perverso nesse cenário.
Por Que as Mulheres Estão Avançando Nesses Espaços
Quando olhamos mais de perto para o movimento de mulheres avançando nesses espaços de liderança, a narrativa que poderia ser de conquista revela outra face. As mulheres começam a ser admitidas justamente quando esses espaços perdem prestígio. É como se, depois que ninguém mais valoriza o terreno, finalmente se permitisse que elas brincassem um pouquinho nele. Um "café-com-leite" institucional: podem entrar, mas só porque ninguém mais se importa de verdade. Como aquela criança menor a quem se permite brincar não para incluí-la, mas para que pare de perturbar — e cujas jogadas ninguém acompanha de fato. Não é condescendência. É invisibilidade ativa. E isso não diz nada sobre o mérito de quem ocupa esses espaços — diz tudo sobre a lógica de quem os abre.
Há uma razão estrutural para isso, e Jacques Le Goff a articula bem em História e Memória: instituições nascem e perpetuam a partir do medo de que uma prática se perca, não do desejo de que ela se transforme. A vocação delas é conservar. O Coral Paulistano, o Theatro Municipal do Rio, o Coro da OSESP — todas essas instituições foram criadas para preservar o status quo, não para questioná-lo, quanto mais mudá-lo. Mulheres que buscam espaço dentro delas não estão subvertendo a estrutura; estão se submetendo a ela. E essa estrutura é, por natureza, misógina — além de racista e elitista — porque foi criada à imagem e semelhança da sociedade europeia que a originou.
Orquestras e corais de tradição europeia são, essencialmente, mímesis da própria sociedade que os gerou. Não têm como criar uma realidade diferente da que está no seu âmago fundador. O repertório diz isso. A estrutura hierárquica diz isso. Rúbia, aliás, conclui muito bem: o racismo está no próprio repertório. Compositores nazistas como Wagner e Orff, fascistas como Mascagni e Respighi, são programados com regularidade. Esse é o cânone que essas instituições defendem.
Não há como inverter as estruturas de poder dentro de um sistema construído exatamente para que elas perpetuem. E tentar fazê-lo não vai fazer o sistema funcionar melhor — vai apenas fazer com que as mulheres se tornem engrenagens mais eficientes de uma máquina que não foi feita para servir a elas. Não se trata de ser maestra ou ocupar cargos de liderança — isso, em si, seria justo e necessário em qualquer contexto. O problema é o que esses cargos significam nesses espaços: quem os ocupa, mulher ou homem, torna-se automaticamente opressor. A cadeira não muda de natureza porque muda quem senta nela.
A Solução Proposta por Rúbia
O artigo de Rúbia sugere uma saída numa direção que merece contestação aberta: maior incentivo governamental e encomendas de obras de compositoras como forma de criar interesse e visibilidade para as mulheres nesse setor.
A intenção é boa. Mas a lógica é profundamente patriarcal.
Esperar do governo é, simbolicamente, esperar do pai ou do marido. Depender de um mecenas institucional para ter a obra encomendada é reproduzir, dentro do campo artístico, a mesma relação de dependência que se quer superar. O consumo real — aquele que move culturas, que sustenta práticas, que as faz durar — não se mede por encomenda. Mede-se por interesse genuíno, por utilidade percebida, por capacidade de entreter e de transformar. Se a música de mulheres não chegar às pessoas por esse caminho, o fracasso é garantido. E não será o fracasso das mulheres — será o fracasso dessas instituições, que já estão falidas muito antes de qualquer discussão de gênero.
O exemplo do El Sistema venezuelano é ilustrativo: prometeu transformação social, mobilizou recursos públicos vultosos, e o que produziu, em larga medida, foi ascensão parca de pessoas miseráveis a paupérrimas, enquanto enriquecia quem orbitava o projeto. [O professor Samuel Araújo, da UFRJ, sintetiza bem esse fenômeno em artigo publicado sobre o tema.](https://doi.org/10.1590/S0103-40142016.00100021) Essas instituições são terreno fértil para desvio e corrupção sob o manto do nobre intuito de educar — mas que na prática catequiza e domestica, como foi feito com os povos indígenas e africanos. É o colonialismo em ação: o colonizador parte do princípio de que sua função é salvar o mundo educando o "bárbaro" — e esse pressuposto, por mais nobre que se apresente, é racismo puro. A mulher que eventualmente chega a esses cargos não escapa dessa lógica: é aceita depois de assimilada, moldada dentro dos pressupostos da instituição, transformada em força de trabalho útil ao mesmo sistema que a excluiu. A porta abre — mas o preço é a conversão.
Paulo Freire é inevitável aqui: ocupar cargos de alto escalão nessas estruturas é tornar-se opressor. Alimentar o sonho de chegar lá é alimentar, no oprimido, o desejo de ser o opressor. Não é libertação. É troca de lado dentro da mesma gaiola.
E não se pode esquecer a origem do canto orfeônico no Brasil e no mundo: unir os povos em concórdia mansa, dócil, diante da dominação da burguesia industrial que enriquecia às custas do trabalho da massa. Essa é a tradição que essas instituições carregam. A pesquisa de Jane Fulcher mostra a partir da estrutura de trabalho, da colocação do canto orfeônico, das temáticas de repertório, toda uma estrutura de entorpecimento das classes operárias para evitar insurgências em um modelo de trabalho análogo à escravidão. Covardias revestidas de nobreza, corrupção revestida de política cultural.
É Bom que Haja Poucas Mulheres Nesses Cargos
Há uma esperança nesse cenário inteiro, e ela é, ironicamente, a própria escassez de mulheres nessas instituições nos cargos de poder.
Porque se alguém tem a sabedoria necessária para virar esse jogo — ou melhor, para recusar jogá-lo —, são as próprias mulheres. Não tenho expectativa nenhuma de que os homens o façam. Mas as mulheres, historicamente ligadas ao que é vivo, ao que é popular, ao que é não supremacista branco e europeu, têm uma posição privilegiada para reconhecer quando um espaço não vale a pena ser ocupado.
Não é por acaso que, junto com a ausência de mulheres nos cargos de liderança dessas instituições, está a ausência da música autóctone, popular e não branca. Rúbia aponta isso. O repertório elitizado europeu exclui as mulheres e apaga essa música. E quando essa música é admitida, é sob condição: precisa ser arranjada, adaptada, submetida ao formato sinfônico e de concerto — sua natureza original não é aceita, apenas tolerada depois de traduzida para a linguagem da elite europeia. E talvez as mulheres e essa música estejam melhor fora desse antro.
Mulheres não deveriam habitar o mesmo espaço que Wagner, Orff, Mascagni e Respighi. Muito menos deveriam ser as responsáveis por promovê-los.
Quanto menos mulheres se interessarem por esses espaços que agonizam, melhor para o mundo. Teremos mulheres fazendo aquilo que melhor sabem fazer — criar, transformar, ocupar territórios que de fato merecem a sua presença.
Este artigo é uma opinião lançada para debate, fundamentada a partir de reflexões sobre os dados da pesquisa de Maria Rúbia de Moraes Andreta. Discordâncias são bem-vindas — desde que também tenham coragem de se manifestar de forma embasada.
Se este artigo mexeu com algo, vale conhecer outras possibilidades de organização coral — especialmente fora dessas grandes estruturas. Leia Corifeu - Lideranças no Canto Coral e veja como distribuir liderança pode criar grupos mais eficientes e menos dependentes da hierarquia tradicional do maestro.

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