A Teoria do Canto Sertanejo

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teoria do canto sertanejo

O título parece pretensioso, ou pior, parece que vou falar de teoria musical pura: intervalos, consonâncias, inversão intervalar. E vou, sim. Mas o assunto de verdade aqui é outro: como se estruturam as vozes no arranjo vocal da música sertaneja, e por que esse é, provavelmente, o efeito harmônico mais elementar que um cantor pode aprender — perdendo talvez apenas para a escuta do baixo dos acordes.

Se você canta e nunca aprendeu a "abrir voz", ainda é um eterno iniciante. Não é ofensa, é diagnóstico.

O que é um intervalo

Intervalo é a distância entre uma nota e outra. Do dó ao mi, terça. Do dó ao fá, quarta. Do dó ao sol, quinta. Do dó ao lá, sexta. E assim por diante, até a oitava, onde o dó se repete, e a nona, quando o ciclo recomeça.
Terças e sextas são consonâncias imperfeitas: continuam soando como consonância mesmo quando o intervalo é maior ou menor, mesmo com aquela "diferençazinha" para cima ou para baixo que a gente tolera no ouvido. Já as consonâncias perfeitas — quinta e oitava — são feitas de intervalos justos, e ali não há tolerância: desvie um pouco e a natureza do intervalo muda.
Terça e sexta, além disso, são inversão uma da outra. Dó-mi é terça. Mi-dó é sexta. É o mesmo par de notas, só que pensado de baixo para cima ou de cima para baixo. Essa inversão é o motor de tudo que vem a seguir.

Por que isso importa para quem canta

Quem só sabe cantar a melodia principal dificilmente afina. Isso não é falta de talento, é física da percepção: a gente só se afina em relação a uma referência, e essa referência começa a existir quando há um intervalo — outra nota, outra voz, outro som para comparar. Cantor sozinho, cantando a melodia pura, não tem contra o que se calibrar.
E o cantor que canta afinado a capela, sozinho, sem nenhuma referência externa? Esse já carrega a referência dentro do ouvido — construiu internamente, de tanto ouvir e comparar intervalos, o mesmo ponto de calibração que o cantor iniciante só encontra quando tem outra voz ao lado. Não é dom, é escuta treinada.
O efeito vocal sertanejo — aquele "chorado", a dupla caipira cantando em paralelo — nasce exatamente da sucessão de terças ou sextas paralelas. E o interessante é que esse efeito funciona como uma sombra: mesmo sem saber o nome das notas, o cantor consegue segui-lo de ouvido. Não é exclusividade da música sertaneja — o mesmo princípio aparece no repertório de concerto e na ópera. É harmonia funcionando por instinto antes de funcionar por teoria.

Veja no vídeo

Colocando em prática: "No Rancho Fundo"

Vamos usar o primeiro verso de "No Rancho Fundo", de Ary Barroso e Lamartine Babo: "No rancho fundo, bem pra lá do fim do mundo".

1. A melodia em uníssono

2. Terça abaixo

3. Só a terça abaixo, sozinha

4. Sexta abaixo

5. Só a sexta abaixo, sozinha

6. As três vozes combinadas

7. A terça acima (que é a sexta invertida)

Como a inversão da sexta é a terça, dá para colocar uma terça acima da melodia — que, vista de baixo para cima, é a mesma sexta. É esse empilhamento que produz o efeito de coro grandioso: a base do arranjo de quando várias duplas sertanejas cantam juntas. A fórmula do "Programa Amigos".

Seguindo essa lógica, dá para montar diversos arranjos corais sem nem precisar escrever nada, só de ouvido. É exatamente por essa prática que tantos cantores sertanejos cantam sem saber uma nota sequer: fazem a mesma coisa em melodias diferentes, porque a estrutura musical se repete, e a lógica se aplica automaticamente. Muitos professores de canto coral chamam isso de "harmonização automática" — não precisa de muita teoria para um coral cantar em harmonia.

O que os corais estão perdendo

É uma pena que boa parte dos corais no Brasil não passe por essa proposta elementar e vá direto para o aprendizado por repetição de melodia ao piano, sem refletir sobre as combinações melódicas. O resultado são cantores que preferem cantar de ouvidos fechados, concentrados só na própria melodia — cantores que se tornam surdos à harmonia por causa do método, não por falta de ouvido. Com essa base, o conjunto ficaria muito mais afinado e muito mais senhor das combinações melódicas, entendendo de fato as raízes da música popular brasileira, que bebe fartamente do sertanejo.
No fim, cantar sertanejo é um exercício elementar para o cantor de coral iniciante. E tem um desperdício ainda maior escondido aí: muitos corais começam direto com cânones, sem antes despertar essa escuta nos cantores. O cânone se apoia no contraponto invertível, que por sua vez se baseia em terças e sextas — e o repertório sertanejo é um manancial para vivenciar esse efeito antes de aplicá-lo em cânone. Cânones cantados com essa consciência prévia saem muito mais afinados e muito mais conscientes.

Além da voz

Esse recurso não é exclusividade vocal — pode ir para os instrumentos, formando orquestras inteiras que replicam o mesmo efeito. E, embora normalmente seja feito para coros acompanhados, também funciona a capela. Por isso a partitura, muitas vezes, vem cifrada:

Isso é só o começo

O que foi mostrado aqui é um único efeito — o mais básico que existe, mas ainda assim só um entre muitos que se vivenciam de verdade num coral. Cantar sertanejo em terças e sextas é o ponto de partida, não o destino. Um coral trabalha essa escuta e todas as outras bases do canto que nenhum vídeo, sozinho, dá conta de ensinar. Se você quer cantar — sertanejo, popular, erudito, não importa — o coral é o lugar para começar, porque é lá que se constrói a formação completa do cantor.
Isso pode ser um coral perto de casa: em ONGs, igrejas, universidades, centros culturais. Procure, existe mais perto do que parece. Mas também pode ser online, com a gente, no Choir at Home — já são mais de 70 singles gravados, e tudo começa exatamente com arranjos pensados a partir desse tipo de escuta que você acabou de ver aqui. Acesse choirathome.com.br para conhecer.

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