Amadorismo e Profissionalismo - Ligações entre o Futebol e o Canto Coral

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O brasileiro gosta de cantar, assim como gosta de futebol. Entretanto, o país soube se organizar mais no esporte que no canto coral, e isso ocorreu em função de pessoas apaixonadas, determinadas a trabalhar duro e investir.

O exemplo do futebol

Nos últimos meses, dediquei parte de minha leitura aos meios de produção amadores. Descobri que o futebol é um ótimo exemplo de prática que iniciou amadora e, hoje em dia, movimenta um mercado bilionário, que rege uma parcela considerável do entretenimento mundial. Mas nem sempre foi assim e algumas iniciativas foram fundamentais para o futebol obter o status que tem atualmente.
No início do século XX, o futebol se tornou uma moda nos ambientes aristocráticos. Era tido como o símbolo do fair play, a elegância ao jogar, a educação perante os árbitros, e seus adversários, era a maneira mais bem vista entre as classes mais altas da sociedade. Agregava status. Entretanto, a essência competitiva do esporte, de certa forma, desbancou a cordialidade e se, por um lado, trouxe alguma violência e deslealdade, por outro, tornou o futebol mais competitivo e muito mais lucrativo. Competições surgiram em todo o país e, conforme aumentava a disputa entre os clubes, maior era a vontade de ganhar, seja pelo prêmio ou, simplesmente, para ser o melhor. Com o intuito de vencer, muitos abandonaram o fair play e a rivalidade se acirrou. 
Os excessos cometidos pela competitividade ocorrem, pois, há um compromisso com a melhora no rendimento, tanto do grupo, quanto de cada jogador. É assim que o futebol cresce cada vez mais. Embora passe por momentos de violência e perfídia, o futebol bem jogado sempre foi o mais reverenciado e, mesmo que haja excessos por parte de algum integrante, a competitividade é o fator determinante para o reconhecimento social. No fim, ninguém aprova o antijogo, e a justiça está disposta a punir aqueles que o praticam.
Observando a história do futebol, principalmente no Brasil, percebo um exemplo claro de atividade que aprende com os próprios erros e que está sensivelmente preocupada, não apenas com a evolução dos seus praticantes, mas também em atender o seu público. Daí as torcidas organizadas que consomem produtos, usam os uniformes, transformam a cultura de um grupo e adotam uma identidade no gosto pelo esporte. No fim, o futebol não é apenas entretenimento, mas, para muita gente, um estilo de vida.

Amadorismo e Canto Coral

Certa vez, ao participar de um concurso, um dos integrantes da banca disse: "na verdade, o problema do Brasil diante do canto coral é que são poucos os momentos em que as pessoas são colocadas à prova, por isso, a falta de familiaridade com a avaliação".
Concordo em gênero número e grau. Sempre que há um concurso de música, os ânimos mudam no setor, e a falta de familiaridade com a situação torna tudo mais tenso. O amadorismo é flagrante, tanto nas instituições organizadoras quanto nos candidatos. Falta prática em ambos os lados. E, em muitos casos, até a banca tem pouca experiência em avaliar.
Se houvessem mais concursos, o mercado do canto coral seria muito mais atrativo, pois teria algum especialista para dizer que certa atuação não foi boa. Os eventos amistosos, na verdade, só reforçam um amadorismo onde o público, por educação, aplaude qualquer coisa. Ninguém taca mais tomate em ninguém. E isso é péssimo! Perdemos a noção de que certas apresentações são ruins. Além disso, abrimos espaço para que diletantes atuem na profissão sem receber as devidas críticas. É necessário haver competição entre os grupos, de modo a separar quem é profissional de quem está apenas atuando sem o devido preparo. Nada melhor do que um júri especializado para mostrar isso perante o público e os patrocinadores.
Por fim, a desvalorização do canto coral se deve aos próprios profissionais envolvidos, visto que a pequena articulação para a organização de concursos afeta o pensamento crítico da área e torna admissíveis trabalhos de baixa qualidade, o que aliena o público, que aplaude qualquer coisa, e os próprios integrantes os quais, na ausência de discernimento, aceitam qualquer proposta vinda não importa de quem.  As pessoas precisam saber quando não estão seguindo o caminho correto. Alguém precisa dizer que certos trabalhos não vão bem, não como um desestímulo, mas, para incentivar os grupos a melhorarem.
O mercado, por sua vez, também perde o discernimento e o interesse. Os trabalhos ruins se tornam tão numerosos que são mais vistos que os bons, visto que não precisam de tanto esmero para serem apresentados. Isso desestimula o investimento. 
Nada contra os diletantes que não possuem formação em música e atuam como regentes, nada impede que façam um bom trabalho. Seguindo o exemplo do futebol, sabemos que a formação não é relevante para o sucesso. O que importa é vencer. Entretanto, competições tornariam o público mais intolerante em relação aos trabalhos de baixa qualidade, os quais seriam naturalmente rejeitados, e o patrocinador mais seguro de um investimento que trás retorno financeiro, visto que teria certeza de que determinado trabalho possui reconhecimento na área.
Sob o ponto de vista do mercado, o canto coral é indiferente, pois, sua economia é ínfima, se comparada aos outros entretenimentos, e muito disso é reflexo da ausência de iniciativas que aumentem o comprometimento dos cantores com a atividade. Nada melhor que uma competição para instigar os cantores de um grupo a fazerem melhor.

Amadorismo nas lideranças

O amadorismo é tão grande que sequer há respeito pelo trabalho dos próprios líderes. Cada vez mais profissionais se sentem desestimulados a compartilhar seus conhecimentos diante dos iniciantes na condução coral, visto que a internet naturalizou certos procedimentos que outrora seriam inadmissíveis.
Não existe mais nenhum respeito pela produção intelectual de nenhum setor ligado ao canto coral. Arranjos são compartilhados deliberadamente com a simples premissa de que o autor será citado. Para o mercado, não existe nada mais amador que isso. O mercado só é sensível ao que é recompensado com dinheiro, bufunfa, grana!! Quanto mais os regentes compartilham arranjos sem o devido reconhecimento aos autores, pagando justamente pelo seu trabalho, mais o mercado liga a atividade do arranjador ao amadorismo. E isso é apenas uma situação flagrante diante de outras como o compartilhamento de livros, de artigos, de áudios de estudo, de edições otimizadas, reduções de orquestra e muitos outros materiais ligados à produção musical. Hoje, o que fazemos é um antimercado, onde, por trás de um falso colaborativismo, regentes e arranjadores altamente capacitados dão suporte a um número imenso de aproveitadores que não trazem nenhum retorno ao setor. Agem como sanguessugas, compartilhando inadvertidamente conteúdo de qualidade sem o devido reconhecimento aos autores. Realizam trabalhos de baixa qualidade e denigrem a imagem do canto coral perante o mercado.

Encontro de Corais

Esse manifesto não propõe o fim dos eventos amistosos de canto coral como os já tradicionais "encontro de corais" que acontecem Brasil afora. Entretanto, em muitos casos, esses encontros se tornaram pretextos para um grupo de pessoas passearem. Para muitos grupos, a excursão se torna mais valiosa que a música. Isso ocorre pela permissividade que a natureza dos encontros de corais admitem. Os encontros são ótimos espaços para testar os atributos de um coro, mas não devem ser a finalidade de um coro. Afinal, o evento é amistoso.
Hoje em dia, os encontros de corais se tornaram um vale tudo onde qualquer coisa é aplaudida. Um cantor inexperiente nem sempre sabe exatamente quando está fazendo bem ou mal, também nem sempre sabe quando o aplauso é sincero ou apenas por educação ou pena. Todos sabemos das dificuldades de fazer música, mas, também devemos entender o compromisso artístico que exige. Vergonha na cara é necessário para alguns grupos se comprometerem mais com a música. Um público que aplaude qualquer coisa, nem sempre está incentivando, mas alienando. 
De qualquer forma, é possível perceber o desinteresse do público diante de certas ocasiões. Já estive em ambientes onde o ruído era altíssimo devido ao simples desinteresse em ouvir as apresentações. Muitos taxam isso como falta de educação. Eu acredito que seja honestidade. Para mim, não tem nada mais sincero que um público que se levanta no meio de uma apresentação e vai embora. Isso só mostra o quão chato aquilo está sendo e o quão desinteressante é para a pessoa que se levantou. Sempre vejo essas atitudes com bons olhos. São os tomates da atualidade.

É necessário mais competição

A competição é importante, e o Brasil carece dela no âmbito musical. As pessoas precisam de reconhecimento. Nada mais justo que receberem um prêmio pelo trabalho que fizeram. E quando digo prêmio, estou falando de grana, "faz-me rir". O mercado só é sensível às atividades que movimentam dinheiro. Por isso, o sucesso do futebol. Enquanto o esporte era amador, pouco dinheiro circulava. As competições atraíram investidores e fizeram do futebol um dos esportes mais populares do mundo. O dinheiro que o  futebol movimenta representa reconhecimento que, consequentemente, vira empenho e produtividade. Premiar um coro pela sua performance é justo. E isso não exclui os coros que possuem dificuldades, basta criar diferentes categorias onde todo tipo de grupo seja contemplado.

É fato que, no mundo inteiro, o universo coral é amador, mas, no Brasil, isso não parte apenas da natureza da atividade, mas da postura dos seus integrantes. A maneira como o Brasil se organiza economicamente, não permite certas condutas e o que vêm acontecendo é uma baixa qualidade de produção num setor cada vez mais sufocado, e um posicionamento sem relevância cultural, uma vez que movimenta poucos recursos e produz pouco conteúdo, se comparado a outras atividades e à produção mundial na área.
Os incentivos estão cada vez mais escassos, e muito disso se deve à  falta de preparo dos grupos diante do mercado. Não há propostas de melhora significativa no fluxo de informações, não existe crítica diante das apresentações, há um desrespeito ao trabalho intelectual e toda a organização da classe ainda está muito embrionária. Há algumas iniciativas importantes, como a ABRC (Associação Brasileira de Regentes Corais), que vem se articulando para melhorar as condições da categoria, mas ainda está iniciando.
Ainda tenho uma infinidade de posições para ilustrar o tamanho do amadorismo no canto coral do Brasil, mas deixarei para outra postagem.

Lembrando que isto é um blog sem nenhum compromisso com a linguagem acadêmica. Deixo estas formalidades para meus artigos e trabalhos científicos que estão na guia publicações deste site. No blog, expresso opiniões balizadas em minha própria experiência e leitura, como num artigo de jornal. A discussão continua nos comentários, portanto, se tem alguma posição a acrescentar, concorda ou discorda das colocações, deixe um. Ficarei feliz em apreciar e acredito que outros leitores também. 

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Comentários

  1. Como é feita a seleção das músicas para cada grupo em si? Alguém dentro do grupo ajuda o Maestro?

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    1. Olá,
      Esta questão é super polêmica e depende muito da interação do grupo com o maestro. Dá uma olhada no artigo Por que é impossível escolher o repertório do coral democraticamente? Está no link abaixo e no "Leia também" deste post.

      https://www.rafaelcaldas.com.br/2019/01/por-que-e-impossivel-escolher-o.html

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  2. Pois é, uma triste realidade.
    Nesse contexto é louvável a iniciativa do Coral São Vicente à Capela - SVAC, que numa iniciativa que inicialmente parecida um devaneio irá participar do festival Summa Cum Laude em Viena em julho. Depois de muito buscarem doações, patrocínios e promover shows e vendas conseguiram arrecadar os valores para custear inscrições e demais custos de viagem.
    Torcendo por mais iniciativas dessas!

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    1. Oi Marta,
      Obrigado pelo comentário.
      É exatamente neste tocante que esta postagem se encontra. Os bons coros do Brasil tem buscado reconhecimento no exterior, visto que aqui, o incentivo é muito pequeno. Parabéns a SVAC pelo belo trabalho e pela iniciativa!

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  3. Aplausos por pena? Rsrsrs não fazia idéia que isso existia. Adorei a sinceridade das suas opiniões, e concordo que vergonha na cara não seria ruim... Tem no entanto aquelas pessoas que entram no coral para relaxar e se distrair, e a essas poderia ser dada a opção de não se apresentar se não quiserem. A partir do momento em que querem aí sim aquela pressão pelo máximo de perfeição, correções, que rola nos ensaios, porque o que esperamos é no mínimo uma apresentação incrível.

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    1. Aplausos por pena são aqueles que o público faz achando que está incentivando. Tipo: "Nossa, foi muito ruim, mas vamos aplaudir pra incentivar". São os tipos de aplausos mais falsos que existem. Tenho um aluna que após uma apresentação disse: "Essa foi boa porque percebi que o público realmente aplaudiu com vontade".
      Tem grupo cujo objetivo é ser uma terapia. De qualquer forma, penso que o compromisso artístico é um respeito a música. Pelo menos fazer bem feito deveria ser um pressuposto...

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  4. A maioria das pessoas confunde qualquer grupo de pessoas praticando canto coletivo com canto coral. Deveria haver mais critérios para se deixar um grupo se apresentar. Infelizmente a maioria dos profissionais é mal preparada. E pior do que uma execução de má qualidade é uma lesão no aparelho fonador dos integrantes.

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