Fake News Musicais - Marketing Musical

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Nas últimas semanas, o Brasil passou por um frenesi com o fenômeno das fake news. É interessante observar a indignação das pessoas simplesmente com a invenção de um termo que se refere a algo que a humanidade faz há muito tempo: mentir sobre determinado assunto.

O caso do funkeiro que pediu a lancha emprestada

Na música, as fake news acontecem o tempo todo e são um importante artifício para virar os holofotes para determinado artista que, pelo talento, não conseguiria tanto sucesso. Tenho um amigo que afirmou ter sido abordado por produtores de um funkeiro pedindo sua lancha emprestada. Pode ser mentira, mas o caso é apenas mais uma evidência de uma notícia que nada tem a ver com música, mas que põe um  artista em destaque, já que, por ser um artigo de luxo, ser fotografado em uma lancha usando joias caras e cercado de gente bonita, pode render um status elevado para determinados seguimentos da sociedade pois mostra, pela ostentação, o tamanho do sucesso daquele cantor. Porém, a informação de meu amigo é bombástica, mostra que tudo aquilo era falso (fake)  já que, assim como a lancha, tudo era emprestado e todo aquele sucesso, na verdade, tinha sido forjado.

Família sempre acha que sabe de tudo

É muito comum, em discussões familiares, uma pessoa, que nada entende de música, dizer: E aí? O que achou do sucesso de tal cantor? Normalmente, fico reticente, pois não sei do que se trata. Em seguida, a mesma pessoa conclui dizendo que o artista é um sucesso porque está endinheirado. Situação comum, em qualquer estratégia de marketing que se preza, de qualquer empresário, que busca o sucesso de um cliente que não possui vocação musical, correr sérios riscos de colocar uma música ruim no mercado. Cria-se a fantasia de que ele está com muito dinheiro, para mostrar o tamanho de seu sucesso. As pessoas, movidas pelo modismo, acatam a informação falsa e começam a consumir aquele produto.

Analogia McDonald's

Nessas situações, sempre uso a máxima do McDonald's: neste momento, o McDonald's é a maior rede de restaurantes do mundo, mas ninguém tem coragem de dizer que o produto oferecido é de qualidade. O alto teor calórico, de sódio e outras substâncias nocivas, aliados à baixa eficiência nutritiva, não afetam as vendas graças à campanha de marketing, ao preço acessível, à disponibilidade de restaurantes em qualquer lugar da cidade, inclusive, entregando em sua casa, ao excesso de realçadores de sabor, que são mais danosos à saúde que qualquer outro alimento. Assim, milhares de clientes consomem McDonald's todos os dias. Podemos fazer a mesma analogia com a Coca-Cola, com biscoito recheado, com molho shoyu industrializado, barras de chocolate ao leite e muitos outros produtos que só fazem mal, mas, mesmo assim, a humanidade os consome. E muito!
As campanhas de marketing desses produtos jamais anunciam o quanto são danosos à saúde. Alguns, inclusive, vêm com o termo "vitaminado" escrito na embalagem, estimulando o consumo por crianças. Por que as campanhas de marketing de música ruim seriam diferentes?

Marketing Musical

No livro "como a música ficou grátis", Stephen Witt mostra que o rap foi um dos gêneros que mais rendeu dinheiro à indústria da música, e quem mais se beneficiou com isso foram as grandes gravadoras. Por mais que a pirataria estivesse dando prejuízos, gerava uma visibilidade tão maior aos cantores que o sucesso compensava. Quanto maior fosse a apologia ao sexo, às drogas, à violência e à misoginia feita pelo rap, maior o seu sucesso, o que gerava um imenso mal estar nas camadas mais conservadoras da sociedade americana. 
Todos esses males sociais são comparáveis aos ingredientes danosos do McDonald's. Por mais que saibamos que fazem mal, de alguma maneira sádica, a humanidade gosta de ouvir sobre essas coisas e, por isso, as consome. É uma regra básica do jornalismo sensacionalista: quanto mais chocante for a notícia, maior audiência proporciona. Por isso, a ostentação se torna tão necessária no ramo, mesmo que emprestada. Do contrário, tudo o que o cantor está falando não será representado em seu clipe musical. 
Segundo Witt, a apologia ao crime, aliada às campanhas de marketing no rádio e na TV, regadas a muito jabá, potencializam o sucesso de um cantor de uma maneira que os meios independentes jamais conseguiriam. Os produtores que se utilizaram desses recursos ganharam rios de dinheiro, e os artistas, independente do talento, também. Até o envio de mensagens em massa foi inventado pelas grandes gravadoras, que contratavam empresas com o único propósito de telefonar para as rádios solicitando músicas, manipulando até os índices de pedidos de música e, consequentemente, de consumo.

Especulação do sucesso

As fake news musicais nada mais são que um tipo de especulação do sucesso. Segundo Leandro Narloch, no livro "Guia politicamente incorreto da economia brasileira", "especular é estudar com atenção, detalhamento, do ponto de vista teórico, o mundo financeiro". Para o autor, o especulador, na realidade, é um analista.
Por uma análise de mercado, as gravadoras especulam que o consumo de música é definido por fatores específicos. Após essa análise, criam um mundo imaginário para um artista, muitas vezes, fazendo uso de recursos audiovisuais, gerando maior empatia com determinados seguimentos da sociedade. Por uma questão de identificação de valores, a indústria musical consegue, com certa facilidade, moldar os artistas de acordo com a necessidade de mercado. Como a massa traz mais dinheiro, os artistas de massa são os que ficam em maior evidência e, provavelmente, são os que, de fato, ganham mais dinheiro, menos que as gravadoras e seus empresários, é claro, afinal, mal comparando, eles não passam de um Big Mac para o McDonald's.

Um negócio arriscado

Como disse antes, o negócio é arriscado. O investimento em música, por mais que possa ser planejado, ainda assim pode gerar prejuízos. Assim como todo especulador, o empresário de música pode escolher mal seu artista ou o seu hit de sucesso, provocando uma rejeição.
Alguém pode acreditar que a Sony contratou a Tiazinha para fazer um disco? Isso sim eu considero uma manobra arriscada. Obviamente, o disco foi um fiasco. Mas isso não tem a ver com o artista. A mesma Sony, ao investir no disco homo sapiens de Jorge Ben Jor também teve que arcar com prejuízos de venda. É sempre uma aposta. Às vezes dá certo...
Em alguns casos, a falta de sucesso é o que torna determinados trabalhos uma joia. O disco Tim Maia Racional é um dos mais difíceis de encontrar no mercado. Uma raridade que está em 17° na lista de melhores discos brasileiros da revista Rolling Stones. Isso ocorreu porque, no momento do lançamento, o disco foi um fiasco de vendas. Tinha uma sonoridade muito distante daquela que o público do cantor estava acostumado a ouvir. Além disso, Tim Maia se arrependeu de ter lançado o disco e recolheu todos os exemplares que ainda estavam à venda. Hoje em dia, um exemplar do disco é uma relíquia para colecionadores.

Talento e Mercado

Na última premiação do Grammy Latino, pudemos observar um fenômeno de mercado interessante. Anitta era uma das concorrentes ao prêmio. A dramatização do episódio já começou com os rumores de um vestido extraviado, o que, para um produto do mercado, é algo terrível. Se não falarmos do vestido da Anitta no Grammy, do que mais poderemos falar? Afinal, a qualidade de sua música não é um fator importante. Não para o público dela... Após a premiação, a mídia, muito mais sensível ao mercado, imediatamente metralhou o consumidor com notícias apocalípticas dizendo que além do vestido, a diva também perdeu o prêmio. Oh! Que injustiça!
Há alguns dias atrás, a própria mídia fez questão de veicular um mea culpa com notícias de que Chico Buarque e Hermeto Pascoal haviam ganho o prêmio e que o caso Anitta havia ofuscado o sucesso brasileiro na premiação. Chico Buarque sequer foi ao evento e ninguém estava preocupado com sua beca de gala. Daí sua importância ser menor diante do mercado de massa. Além disso, nos dias de eleição, Chico foi perseguido por sua inclinação política à esquerda, o que gerava notícias que rendiam mais audiência. Os jornais, mais aliados às pressões do mercado, talvez não estivessem interessados em veicular um disco produzido por uma gravadora independente (biscoito fino) e, ao mesmo tempo, denunciante de uma realidade social brasileira. Caravanas fala de racismo, de homofobia, de Cuba e de muitos outros assuntos nos quais o mercado não está interessado. É erudito demais para as massas, assim como as loucuras experimentais de Hermeto Pascoal.
Podemos concluir que o talento venceu o mercado no Grammy Latino, mas, isso seria mais uma fake news, visto que, não fosse o mercado, talvez, Anitta nem tivesse  sido indicada.

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Comentários

  1. Ótima matéria, assim como as demais. Não sabia que as gravadoras contratavam empresas para pedir música na rádio!
    E quem é materialista valoriza dinheiro, poder e as aparências, então uma lancha dessas, uma jóia, um terno ou outros vernizes já fazem mudar a forma de tratar alguém, não sendo capaz de ter a percepção, observação e o feeling de diferenciar se dentro dessa embalagem colocaram um mendigo ou um príncipe; um gênio musical ou um inapto.
    Infelizmente a mídia de massa é manipulada, capaz de produzir e destruir ídolos, notícias, tendências, bandidos, heróis e direcionar o comportamento do povo distraído.
    Entretenimento instantâneo, volátil e vazio, como os nutrientes do McDonalds. O hit do verão; barulhos primitivos para coreografias do cio.
    Já um Chico Buarque, música clássica, um rock progressivo e outros com letra ou melodia mais trabalhada restam para um público mais exigente, crítico e seletivo e dá mais trabalho para se achar por aí.
    Assim como as multidões na fila do McDonalds estão buscando comida industrializada, fabricada em série para ser engolida em alguns minutos, um público menor vai num restaurante gourmet com tempo para saborear cada aroma, harmonização e a arte de um prato trabalhado por um chef de forma exclusiva.
    Mas não creio que um Chico Buarque ou um restaurante diferenciado trocariam suas essências para abarrotar de mutidões e ganhar mais dinheiro. E nem que se acabasse todo tipo de música grotesca o público iria adotar o estilo mais erudito. Há ainda os que gostam de ambos.
    Por isso tudo está certo no seu lugar, e há público para todos.

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