Resenha Coral - Orfeón Infantil Santiago

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Em tempos de instabilidade e polarização política, escrever sobre orfeões se tornou necessário. Não apenas pela questão histórica que possuem, mas também pela função social que assumem.
O disco desta resenha chama-se Orfeón Infantil e foi gravado pelo Orfeão Santiago sob a regência de Electo Silva. A Egrem, Empresa de Gravações e Edições Musicais, selo da gravadora nacional de Cuba, que o publicou. 
Após um acordo com a Sony Music, os discos gravados pela Egrem estão disponíveis nas plataformas digitais sob o selo "The Real Cuban Music"; revelando uma das produções mais importantes da música ocidental moderna. 

Orfeón Santiago e Electo Silva

O Orfeón Santiago foi fundado em 1960 por Electo Silva em Santiago de Cuba. Entre os diversos objetivos, está o de educar as vozes desde a infância para o canto coral usando o repertório tradicional latino americano e espanhol renascentista. 
Electo Silva foi um arranjador, pedagogo e regente cubano que dirigiu o Orfeão Santiago e o Coral Universitaria da Universidade do Oriente em Santiago de Cuba. Electo é um dos fundadores da Universidade Oriente que é referência no ensino das artes em Cuba, especialmente, a música.

Aspecto Pedagógico

A relevância deste disco está no seu aspecto pedagógico. O objetivo dele é orientar sobre como conduzir um orfeão infantil: os procedimentos pedagógicos, a maneira de posicionar as crianças, a maneira de passar o conteúdo, o repertório. Tudo está gravado de maneira objetiva e com exemplos sonoros. E que timbre! Ouvir os exemplos revela o belo som que este orfeão possui. Embora pareça algo enfadonho, já que as canções estão entremeadas de comentários, é tão bem construído que, na verdade, revela-se uma grande curiosidade no que Electo Silva propõe. Na verdade, os comentários trazem a atenção de volta à música, não nos deixando nos distrair com outros elementos. É como um ensaio aberto de um dos maiores regentes de música latina com um repertório e grupo muito específicos. 
Já de início, o narrador revela que o método utilizado é o do compositor húngaro Zoltán Kodály, dando um norte teórico aos recursos pedagógicos utilizados no coro, valorizando a música de tradição oral nacional como elemento fundamental para o ensino de música e o aspecto "ouvir" acima de tudo, antes de cantar, para uma afinação cristalina, que é possível observar especialmente nas canções à capela deste disco.
O instrumento acústico bem afinado para o Orfeão de Santiago é a melhor referência sonora, além da voz, é claro. Electo diz que os sintetizadores são frios e sem alma. Acho muito bonita a combinação flauta e dois violinos para acompanhar o coro, usando dois instrumentos que trabalham no âmbito da voz infantil. A mistura dos timbres me agrada muito. O uso da voz de cabeça faz o timbre ficar suave e doce, como dos coros infantis centenários europeus. 
A influência espanhola é clara, especialmente no uso de canções da renascença como um trabalho de base para a construção do som coral a partir das referências ancestrais. Assim como em todos os orfeões do mundo, o cubano busca dentro da música antiga as raízes de sua sonoridade. 

Aspecto Político

O orfeão é um instrumento de doutrinação política. O conceito de coro orfeão foi criado sob esta égide, na França, durante século XIX, com o objetivo de domesticar trabalhadores que viviam em péssimas condições. Em franca revolução industrial, sem direitos trabalhistas e sem nenhum amparo do estado, esses trabalhadores recebiam uma carga de valores que os mantinha mansos. Os direitos trabalhistas atuais começaram a ser conquistados a partir de revoluções da classe trabalhadora desse tempo que, apesar do canto orfeônico como instrumento de dominação, souberam se impor diante dos abusos. De qualquer forma, o orfeão foi, e ainda é, um instrumento de domesticação do povo, evitando levantes populares contra o governo. 
Nas canções prevalece o mote nacionalista, reverenciando os heróis nacionais. No caso dos países cristãos, a figura de Deus e a submissão à igreja, a elevação do espírito pelo trabalho, a mansidão do trabalhador rural, e outras abordagens que constroem um imaginário de nação próspera, desenvolvida e polida. 
No Brasil, durante o Estado Novo, Getúlio Vargas implantou o canto orfeônico como disciplina obrigatória nas escolas. Nos livros didáticos, feitos sob a supervisão de Villa-Lobos, é possível observar várias canções de cunho cívico-político e de exaltação aos heróis nacionais, à nação, ao governo e às profissões que formavam a estrutura básica de subsistência do Estado. Durante a ditadura militar essa doutrinação prevaleceu a partir da disciplina moral e cívica, que não utilizou os aspectos pedagógicos do canto orfeão, que remetiam às práticas varguistas, mas ia direto ao ponto com a obrigação do canto dos hinos pátrios e da reverência aos símbolos nacionais. Na Alemanha, Hitler usou o folclore nacional como símbolo da superioridade ariana. Mussolini, a ópera séria italiana. 
Em Cuba, o uso do orfeão não é diferente, neste disco vemos canções de exaltação a Che Guevara, ao Socialismo, aos trabalhadores das atividades tradicionais de Cuba. Revela-se uma preocupação constante de mostrar que o socialismo promove a paz entre os povos, como uma resposta ao que a mídia mundial publica sobre o regime. 
As canções com temática política não são o foco do CD, que prioriza os aspectos da música como ciência independente. Isso deixa uma dúvida: o aspecto político surge por imposição do Estado, por uma estratégia de barganha, isto é, como elemento de troca para a produção de um bem material, ou seja, gravando algumas músicas de cunho nacionalista para convencer o Estado a gravar um disco do grupo, ou porque o grupo realmente concorda com a política vigente? De qualquer forma, o disco está aí e, além das questões musicais, evidencia o valor patriótico do repertório levado à escola. 
Esta pode voltar a ser uma realidade brasileira. Alguns movimentos pela volta da moral e cívica, nos moldes da ditadura, estão em evidência no cenário atual, apenas com a ideia do valor patriótico, mas sem a crítica da doutrinação política feita a partir desses elementos de dominação que priorizam interesses das camadas mais ricas da população em detrimento da elevação social do povo. Enquanto a sociedade estiver focada no crescimento econômico, a sombra da revolução industrial e seus elementos de dominação permanecerão. O exemplo cubano, brasileiro, alemão, italiano, e de muitos outros países de regimes autoritários, evidenciam essa experiência. 

Cabe a reflexão: como uma ilha consegue produção artística de tamanha qualidade? Não há explicação senão pelo incentivo governamental. Dificilmente o mercado se interessaria por esse tipo de produção. O que, provavelmente, ocorre com a música cubana, assim como com os esportes e com a educação, é um investimento estatal pesado que permite a produção de preciosidades como este CD. Em um local onde a produção agrícola e industrial se torna diminuta por uma limitação de espaço, resta o investimento no intelecto humano. 
Ao que parece, quanto mais intervenção estatal, maior crescimento artístico e menor liberdade de expressão. Como trabalhar esse equilíbrio? Até que ponto a intervenção estatal é saudável para a produção artística e favorece o crescimento livre de seus agentes? Será possível um governo que represente as camadas mais pobres da população sem interesses espúrios? O orfeão reflete a política de um país tanto em sua qualidade, quanto em sua longevidade e relevância. Talvez o Orfeão Santiago só não seja mais conhecido por ser cubano. 
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