Resenha Coral - Soweto Gospel Choir - Freedom

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Na primeira vez que tive contato com o repertório sul africano, fui impactado pela potência vocal e pela beleza harmônica das músicas. Nunca tinha ouvido algo do tipo. Após concluir o mestrado, encontrei-me com o professor de antropologia da música que me havia apresentado esse repertório, ainda na graduação, e ele me disse que fiquei doido quando ouvi. É verdade, impactou-me. A postagem de hoje é sobre o álbum Freedom do Soweto Gospel Choir.

Freedom

Freedom em inglês significa liberdade, palavra muito importante para povos perseguidos e marginalizados como o povo sul africano que, mesmo depois de anos de escravização durante a colonização, sofreu com o apartheid, regime de segregação racial adotado na África do Sul de 1948 a 1994. Durante esse período, o coral se tornou identidade nacional no combate ao regime que assassinou milhares de pessoas oriundas das diversas pátrias tribais autônomas do país.
Gravado em 2018, o álbum traz doze canções de liberdade em seis das onze línguas oficiais sul africanas, abrangendo músicas populares tradicionais e hinos protestantes que falam sobre liberdade, além de uma versão de Hallelujah de Leonard Cohen.

Isicathamiya - Raízes da música coral sul africana

A música coral sul africana possui longo histórico. Inicia-se nas missões de evangelização de negros pela igreja protestante, que possui ampla tradição coral, e ganha maior força conforme o movimento gospel nos EUA prospera com predominância étnica negra. O contato com o Minstrel Show e com o Ragtime americano durante a visita de tropas estadunidenses no século XIX, criou ainda maior identificação com o modelo musical norte americano.
Nesse ambiente, surge a Isicathamiya, com o "c" pronunciado com um clique na língua. Isso ocorre porque a língua zulu, assim como muitas outras línguas africanas, é uma língua tick e admite fonemas que são caracterizados por estalos da língua. O gênero contrasta com o mbube (leão em zulu). Enquanto a Isicathamiya procura a mistura das vozes dentro de combinações harmônicas, o mbube busca um canto vigoroso e potente para mostrar a força do povo africano. Aos poucos, o termo Isicathamiya foi se popularizando e sendo utilizado para todas as músicas desse repertório.

As primeiras aparições de grupos de Isicathamiya mostram apenas homens cantando a quatro ou mais vozes, com um solista, em forma responsorial (estrofe com solista e resposta coral como refrão). Chama a atenção o traje dos grupos que iniciaram a prática: terno, luvas brancas, camisas brancas cintilantes, sapatos pretos bem lustrados e meias vermelhas, mostrando uma ligação com a cultura branca e, ao mesmo tempo, uma crítica à perseguição feita pelo homem branco. O uso do traje europeu revela a influência dos minstrels shows, onde brancos se caracterizavam como negros. Nos primeiros registros de Isicathamiya, ocorre o inverso: os negros se vestem como brancos. A coreografia, levantando os joelhos também é um traço característico.
Hoje em dia, os trajes são mais coloridos, usando motivos tribais sul africanos. A coreografia, por sua vez, é mais livre, embora mantenha muito dos movimentos tradicionais de levantamento de joelhos.
O caráter espiritual desse gênero musical é tão forte que os líderes, que normalmente puxam o canto e são respondidos pelo coro, dizem receber as músicas de espíritos cantantes.
Competições de Isicathamiya são constantes em Joanesburgo avaliando não só quesitos musicais, mas também coreográficos e de figurino, contribuindo para a evolução do gênero que, nos dias de hoje, admite mulheres e homens e é tratado como patrimônio nacional. A Copa do Mundo e o uso de sonoridades do gênero utilizadas  no filme da Disney, O Rei Leão e por Paul Simon no álbum Graceland, deram ainda mais ênfase à produção.

Soweto Gospel Choir

O Soweto Gospel Choir foi fundado em 2002 em Soweto, cidade contígua a Joanesburgo, reservada, no tempo do apartheid, apenas para negros. Os fundadores são os regentes corais David Mulovhedzi e Beverly Bryer. O local de fundação, por ser um reduto de resistência, deixa claro o objetivo do grupo: denunciar os horrores da segregação racial com música coral de alta qualidade e impacto sonoro.
O coro se concentra na produção de repertório com elementos afro gospel, negro spiritual, reggae e de música popular americana. Constantemente homenageia Nelson Mandela e o Arcebispo Desmond Tutu, importantes figuras na luta contra o apartheid e na libertação do povo negro.
Possui diversos prêmios: dois de melhor artista internacional do Gospel Awards (EUA); um Helmann Award (Austrália) três SAMAs (South African Music Awards); um Metro FM Award (África do Sul); dois Grammy's de melhor grupo de World Music;  três Grammy's associados; um Emmy pela promoção da Copa do Mundo de 2010 junto à ESPN, e outros prêmios ligados à música tradicional.
A influência da Isicathamiya é clara e, provavelmente, é o motivo pelo qual o Soweto Gospel Choir possui sonoridade tão potente, cores vibrantes e coreografia marcante, trazendo um show completo, com belas harmonias, cores e movimentos.


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