Postagens

A Teoria do Canto Sertanejo

Imagem
O título parece pretensioso, ou pior, parece que vou falar de teoria musical pura: intervalos, consonâncias, inversão intervalar. E vou, sim. Mas o assunto de verdade aqui é outro: como se estruturam as vozes no arranjo vocal da música sertaneja, e por que esse é, provavelmente, o efeito harmônico mais elementar que um cantor pode aprender — perdendo talvez apenas para a escuta do baixo dos acordes. Se você canta e nunca aprendeu a "abrir voz", ainda é um eterno iniciante. Não é ofensa, é diagnóstico. O que é um intervalo Intervalo é a distância entre uma nota e outra. Do dó ao mi, terça. Do dó ao fá, quarta. Do dó ao sol, quinta. Do dó ao lá, sexta. E assim por diante, até a oitava, onde o dó se repete, e a nona, quando o ciclo recomeça. Terças e sextas são consonâncias imperfeitas: continuam soando como consonância mesmo quando o intervalo é maior ou menor, mesmo com aquela "diferençazinha" para cima ou para baixo que a gente tolera no ouvido. Já ...

O Anjo de Roma e o mal-entendido entre gostar e saber

Imagem
O Anjo de Roma e o mal-entendido entre gostar e saber: o que a voz de Moreschi nos ensina sobre estética e técnica Há alguns dias, num vídeo em que analiso a voz de Alessandro Moreschi — o "Anjo de Roma", último castrato da história e o único registrado em gravação para que pudéssemos, mais de um século depois, ouvi-lo — recebi um comentário que resumia bem uma reação comum a essa gravação: estranhamento, repulsa, e a conclusão de que aquela voz não tinha valor técnico algum, quase como se qualquer pessoa sem preparo fosse capaz de produzir o mesmo resultado. É uma reação compreensível. Também é, tecnicamente, um equívoco. E é esse equívoco — comum, recorrente, quase estrutural na forma como ouvimos música — que quero desenvolver aqui. O estranhamento tem explicação histórica Antes de qualquer coisa, vale reconhecer: a estranheza diante da voz de Moreschi não é ir...

Coralizando tem novidade: nasce o Postcast

Imagem
Depois de alguns anos escrevendo no blog Aprenda a Cantar com Rafael Caldas , cheguei a uma constatação simples: sou a única pessoa produzindo conteúdo do Choir at Home — texto, vídeo, áudio, arranjo, edição — e, para que isso seja sustentável no longo prazo, cada formato precisa se alimentar do outro, em vez de competir por tempo e atenção. Foi dessa necessidade que nasceu o Postcast : um novo formato de episódio dentro do Coralizando , nosso podcast. O que é o Postcast A ideia é simples de explicar e trabalhosa de sustentar: os artigos do blog passam a existir também como áudio nativo. Eu mesmo leio o texto na íntegra e o resultado vira um episódio do Coralizando — com abertura e encerramento próprios — publicado no Spotify, nos principais agregadores e, em vídeo, numa playlist dedicada no YouTube. No blog, um player do Spotify aparece logo no topo do artigo, antes do primeiro parágrafo, para quem preferir ouvir a ler. Por que fazer isso Não é só uma quest...

Migalhas Musicais: Poder simbólico (Bourdieu) explica os projetos sociais de música

Imagem
  Publiquei recentemente no canal do YouTube um vídeo chamado "O lado sombrio dos projetos sociais de música" , e um comentário na discussão me fez perceber que faltava um conceito sociológico para amarrar melhor o argumento. Esse comentário — que agradeço, porque tocou exatamente no ponto certo — me motivou a escrever este post. Vou usar o poder simbólico , de Pierre Bourdieu, como ferramenta para explicar por que os projetos sociais de música, por mais bem-intencionados que sejam seus idealizadores, acabam reproduzindo uma perversidade que não tem relação nenhuma com música. O que é poder simbólico Pierre Bourdieu chamava de poder simbólico a capacidade de fazer ver e fazer crer: o poder de impor uma visão de mundo, uma hierarquia de valores, um sistema de distinções, sem que isso pareça imposição — parece só "como as coisas são". Diferente do poder econômico ou político bruto, o poder simbólico opera pelo reconhecimento: ele precisa que os dominado...

Por que sua voz cansa nos agudos

Imagem
Se sua voz sai rouca, tensa ou visivelmente cansada depois de cantar um trecho agudo, o problema quase nunca é o agudo em si — é o caminho que você faz até chegar nele. A causa mais comum é pesar no salto: empurrar o som, tensionar o pescoço, forçar a nota a subir (ou descer) sem dar o espaço interno que ela precisa. O resultado é cansaço, afinação prejudicada e, com o tempo, desgaste real da voz. Neste artigo eu explico, de forma mais detalhada e com dois exercícios práticos, além do vídeo abaixo sobre como lidar com saltos — tanto do agudo para o grave quanto do grave para o agudo — sem pesar a voz. Uma das causas do cansaço: o salto para baixo mal feito O salto do agudo para o grave é, tecnicamente, o mais fácil de fazer — mas é exatamente por isso que ele costuma ser mal feito. Como parece "fácil", a tendência natural é relaxar demais ou, pelo contrário, se sentir "poderoso" demais ao alcançar graves e pesar nele. Se você "olha para o céu...

Céu de Santo Amaro: o que um coração de Flávio Venturini revela sobre como se escreve a história de uma música

Imagem
Há pouco tempo, o próprio Flávio Venturini comentou um vídeo meu contando a história de "Céu de Santo Amaro". Três corações. No vídeo, contei como Flávio Venturini pegou a melodia do Arioso de Bach e escreveu a letra inspirado numa descrição que o Caetano Veloso fazia do céu da sua cidade natal, Santo Amaro. Uma música que muita gente atribui ao Caetano, mas que na verdade nasce como criação do Flávio — um caso, entre tantos, de contrafactum: melodia erudita preexistente ganhando letra nova em português, prática comum entre compositores brasileiros das décadas de 1930 a 1950.  Minha primeira reação ao comentário foi lê-lo como uma espécie de validação: se a genealogia da música estivesse errada, ele teria corrigido — ou nem comentado, certo? Mas essa leitura é generosa demais. Um coração não confirma nenhum dado específico. Pode significar "gostei de ver essa homenagem" tanto quanto "sim, é exatamente isso" — sem que o Flávio tenha necessariamente coteja...

Salto melódico ascendente: o maior culpado da voz de taquara rachada

Imagem
Você já cantou uma frase tranquila, resolvido, e de repente, bem na hora de subir uma nota, sua voz "quebrou"? Saiu aquele som apertado, meio rouco, estridente, penetrante, sem nenhuma elegância — e você pensou: "pronto, minha voz é de taquara rachada, eu não nasci pra cantar" . Calma. Quase sempre isso não é uma questão de dom. É uma questão de técnica no salto melódico ascendente , saindo de uma nota grave em direção à aguda. Veja no vídeo abaixo esse problema acontecendo — e sendo resolvido — na prática: Por que o salto é o momento mais delicado do canto O salto é um dos momentos mais exigentes de qualquer melodia. Quando a voz sobe de uma nota para outra distante, o espaço interno muda e o registro da voz , muitas vezes, muda junto. Se você trata esse momento como se fosse só "subir o volume", "empurrar mais o ar" ou "fazer força", a voz cai na garganta, aperta, e nasce aquele som de taquara rachada que tanta gente...

O código secreto da música: por que só "quem entende" pode falar sobre ela?

Imagem
O artigo de Philip Tagg, "Analyzing Popular Music: Theory, Method and Practice" , coloca em palavras uma inquietação que carrego há anos: o vocabulário que usamos para falar de música é um portão fechado, e a chave custa caro. Tagg não é o único a apontar isso. Philip Ewell, em seu livro sobre teoria musical , vai além e mostra como toda a tradição da "music theory" ocidental carrega não só um viés eurocêntrico, mas raízes racistas na forma como se constrói cânone, repertório e critério de valor. O artigo de Tagg é mais modesto no escopo, mas talvez chegue mais longe num ponto específico: ele mostra, semioticamente, como estamos enjaulados numa forma europeia e elitizada de comunicar sobre som. Uma língua que poucos podem comprar A educação musical formal ensina uma espécie de língua codificada — e essa língua tem mensalidade. Ela exige anos de teoria, professor particular, instrumento, tempo livre. Isso já é, por si só, uma barreira de classe. Mas o...

Forma Canção: Entenda Refrão, Estrofe e Ponte

Imagem
Muita gente usa "música" e "canção" como se fossem sinônimos. Não são. Canção é um gênero específico de música cantada, com uma forma própria — e é sobre essa forma, feita de estrofe e refrão (por vezes, ponte, pré-refrão, pós-refrão, interlúdio, dentre outros), que este artigo trata. O vídeo que complementa este texto mostra na prática como isso soa; aqui vamos destrinchar cada parte. Canção não é sinônimo de música Tratar canção como sinônimo de música é um reducionismo grave, tanto do ponto de vista musical quanto literário. A literatura admite formas variadas mesmo para letras cantadas, e a música — cantada ou não — vai muito além da estrutura de canção. O Hallelujah de Haendel, por exemplo, é um fugato polifônico. Os cânones seguem a mesma lógica. Ou seja: nem toda música cantada é canção, e a canção é apenas um recorte dentro do universo literário-musical. De onde vem a estrutura de estrofe e refrão A estrutura de estrofe e refrão, típica da ...

BPM não é subdivisão: o que o Créu e a Remada Viking ensinam sobre tempo musica

Imagem
Um comentário recebido no vídeo trouxe uma provocação boa demais para ficar só na caixinha de respostas. Aqui, a mesma discussão ganha remo, pedal e partitura tocável. Depois do vídeo sobre a Remada Viking e o Créu, recebi um comentário ótimo relacionando a discussão com a dança: será que, do ponto de vista do movimento corporal, subdividir o tempo não seria, na prática, o mesmo que acelerar? A resposta rendeu uma analogia náutica que vale a pena esticar — com barco, remo, marcha de bicicleta e código de partitura. Duas grandezas, um mesmo relógio Música é a arte de organizar som no tempo, e esse tempo tem duas réguas diferentes que costumam ser confundidas. Uma é o BPM — batidas por minuto, a velocidade do pulso. A outra é a divisão rítmica — como cada som individual é fatiado dentro de cada batida. Subir o BPM muda a duração de cada batida. Subdividir não muda a duração de nada: só decide quantos sons cabem dentro do espaço que já existia. É exatamente esse mal-en...