Canto coral híbrido traz bons resultados?

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Canto coral híbrido: um olhar atento aos novos modelos de ensaio

Você está doido para voltar a cantar e, ao retomar as atividades, percebe que seu coro adotou o modelo de ensaio de canto coral híbrido. Será que este modelo atende às necessidades do canto coral?

Reflexos da pandemia no ensaio coral

Com os casos de COVID-19 diminuindo, diversos grupos adotaram o chamado ensaio de canto coral híbrido, mas esse modelo funciona? Quais são as bases pedagógicas que sustentam a prática?

A resposta é simples: não há bases pedagógicas para essa terminologia, pois os recursos didáticos sempre foram híbridos.

O ensino híbrido sempre existiu

O que é o livro, senão um formato de ensino à distância? Um portal que nos transporta ao pensamento de um autor?

Pensar em educação sem livros é inconcebível, da mesma forma, pensar em um modelo que se difere por trabalhar concomitantemente no ensino presencial e a distância não faz sentido.

O uso de multimeios é comum na sala de aula desde a invenção da gravação. Usar discos, fitas K7, VHS, CDs é normal desde meados do século XX. Inclusive, muitos desses materiais dispensavam a presença do professor em tempo real.

Bases pedagógicas

Isso não é apenas o reflexo da democratização dos aparelhos domésticos, que iniciou a partir da segunda metade do século XX, quando cada pessoa tinha um aparelho de rádio em casa, e os jornais tinham várias páginas levando informação diretamente para cada cidadão.

Uma das correntes filosóficas mais aclamadas da educação prega o pragmatismo, que é a capacitação para o aprendizado prático, autônomo e independente.

John Dewey, Charles Pierce e William James observando as mudanças da sociedade durante a revolução industrial observaram a importância do uso de materiais didáticos que permitem aprender sozinho. Tudo isso ainda no final do século XIX.

Usar a internet para ampliar a gama de recursos é mais uma expansão desses processos. Nunca precisamos chamar um sistema de híbrido por isso.

A relação espaço-tempo no canto coral híbrido

Muitos grupos adotaram este termo para justificar o atendimento presencial e a distância concomitantemente. Entretanto, o nome híbrido não diz respeito a estar, ao mesmo tempo, em determinado lugar, mas ao uso de multimeios para o aprendizado. Tem mais relação com o acesso aos recursos didáticos disponíveis.

O fato de adotar um modelo somente por agregar o presencial e online no mesmo espaço físico retira toda a essência do EaD, que é a flexibilidade.

O bom do livro é que posso ler em qualquer momento, de acordo com a minha conveniência. O mesmo princípio se aplica aos outros multimeios. Não faz sentido realizar um trabalho que se diz a distância sem o propósito básico de ter atividades flexíveis.

A inspiração midiática

Podemos comparar com os programas de rádio e TV ao vivo. Provavelmente, a inspiração das propostas híbridas que se preocupam somente com o espaço.

Há muito tempo esses programas possuem plateias, que ficam no estúdio, e ainda são transmitidos ao vivo em cadeia nacional.

Muitos deles, inclusive, possuem uma tela com a imagem das pessoas e dedicam momentos especiais para interagir com esses espectadores. No rádio, usavam o telefone com o mesmo objetivo.

O híbrido não resolve os problemas de quem está a distância, pois não foi pensado para eles. Nos programas de TV, quem está a distância não é considerado protagonista, mas convidado. Esta interação nunca justificou o uso do termo híbrido.

Não é sobre o ensaio, é sobre o cantor!

O conceito híbrido não tem nenhuma relação com juntar o presencial com a distância, nem é o mesmo de ensino a distância. O ensino a distância parte, essencialmente, de quem vai aprender a distância.

A ressignificação do termo é um perigo pedagógico, pois distorce o objetivo da atividade de forma drástica.

O aprendizado exige postura ativa. O cantor, enquanto espectador, é sempre passivo. O centro das atenções deve estar na transformação do aluno, de acordo com o meio em que está inserido.

Canto coral híbrido e o show da Xuxa

Um bom exemplo é o programa da Xuxa:

Só ganhava brinquedo e bola a criança que estava na plateia. Só ganhava pão no café da manhã do Praga a criança que estava lá presencialmente.

A educação moderna parte da formação de seres pensantes, não de seres imitadores, que apenas assistem aos outros sendo atendidos e se contentam com isso, ficam no desejo de estar no mesmo posto. Todos precisam ser contemplados de forma equânime. Os benefícios precisam ser equivalentes.

Canto coral a distância

Se é a distância, então devem haver propostas igualitárias de aplicação prática das propostas. No caso do ensaio coral, é necessário o estímulo ao canto de forma flexível, usando as ferramentas adequadas para satisfazer a necessidade do cantor em todas as circunstâncias.

Um ensaio que só destina alguns minutos a determinada condição de um cidadão é excludente e vai de encontro aos princípios básicos da educação moderna. É uma abordagem industrial que visa apenas mais uma fonte de recurso, sem tirar a conveniência do trabalho que já está sendo realizado.

Relação de trabalho

Como medir a quantidade de trabalho dentro e fora do momento do ensaio?

Sabemos que o regente trabalha mais do que o horário de ensaio, pois acumula atividades extraclasse, não remunerada (extra-ensaio). Pesquisa e estuda o repertório, prepara materiais de estudo, regimenta cantores, investe em capacitação continuada. Adotar práticas assíncronas pode trazer ainda mais trabalho para quem já recebe menos do que deveria. 

Temos aqui uma questão trabalhista que ainda precisa de ampla discussão, mas que é determinante para o surgimento de anomalias educacionais.

Canto coral e EaD

Estar na sala de aula o tempo inteiro não é mais necessário. Em música, mais que em qualquer matéria, o aluno precisa aprender a realizar as tarefas sozinho. Afinal, é o próprio aluno que tem que tocar e/ou cantar.

Concentrar as atividades em tempo real acentua um dos maiores problemas do canto coral: o estudo individual, tão necessário para o aprendizado musical. Além de ir de encontro aos princípios básicos da educação a distância, que é dar autonomia ao aprendiz. Mais do que nunca, a função do maestro é a de professor, justificando o nome, que traduzido do italiano para o português, significa mestre.

Avaliação no canto coral

O maestro, sendo o facilitador na obtenção do conhecimento, deve concentrar os esforços na capacitação dos alunos em dominar os meios modernos de aprendizagem para alcançar a autonomia nos estudos.

Desenvolverem a habilidade de identificar os próprios erros, condição básica para definirem aquilo que sabem. A autoavaliação propriamente dita, tão óbvia na ciência musical a partir da apreciação consciente do belo. Além disso, ensinar o aluno a aprender a aprender, para que seja senhor de si, tornando-o independente para alcançar os próprios objetivos. Consciente daquilo que precisa para se desenvolver.

Um modelo para cantores comprometidos

O ensino a distância estimula o aprendizado ativo, pois exige o movimento do aluno. Ele não fica parado esperando o conteúdo ser enfiado em sua mente. Precisa agir para as coisas acontecerem. Essa saída da inércia incentiva a relação colaborativa, a formação de comunidades que são potencializadas pelas redes sociais. Evidencia a necessidade da consciência, da  autocorreção e da autoavaliação, o empoderamento dos meios de pesquisa e aprendizado como um todo.

A era do professor como a imagem de Deus, senhor do conhecimento, detentor da razão, acabou. Hoje em dia, todos podemos ser questionados de forma embasada, pois as ferramentas de pesquisa são gratuitas e acessíveis.

O modelo ideal

Se é híbrido, tanto a atividade presencial como a distância são igualmente importantes e necessárias. No vídeo abaixo faço uma Live com Fabiano Lemos, especialista em educação musical a distância com pesquisa de doutorado sobre o assunto. Nesta Live, dedicamos um bom tempo desconstruindo o termo híbrido e chegamos a conclusão de que é um termo fadado ao desaparecimento, pois híbrida toda educação é, e sempre foi.

O foco é a transformação humana

Não vejo nenhuma diferença do canto coral online e presencial, pois quando trabalhados da forma adequada, ambos os modelos trazem a transformação que a atividade favorece. Como professor, meu foco está no benefício proporcionado pela música.

Um não é melhor que o outro. São abordagens diferentes com o mesmo objetivo em comum. O bom uso das ferramentas disponíveis é o que define o proveito de cada um. Sabendo que muitos possuem preconceitos com a atividade online, escrevi outro artigo sobre o tema avaliando se o canto coral online funciona. Você pode acessar clicando abaixo:

CANTO CORAL ONLINE FUNCIONA?

Comentários

  1. Concordo plenamente!

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  2. Muitas informações valiosas e esclarecedoras neste artigo. E parabéns aos professores Rafael Caldas e Fabiano Lemos pela abordagem franca e objetiva sobre o ensino da música na era digital.

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  3. Mais um bom artigo sobre a educação e a intensificação do uso de ferramentas tecnológicas com o isolamento social imposto pela pandemia do Covid-19. Fiz parte de um grupo de alunos do maestro Rafael Caldas que já utilizava ferramentas online de áudio antes de participar de um Coral totalmente virtual.

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  4. Parabéns, Rafael, pela abordagem diferenciada e bem explicativa sobre o que é um coral híbrido! 👋👋👋

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  5. Excelente Rafael ! 👋👋👋

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