Coro virtual é fake?

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Vídeos de corais em formato mosaico já existiam antes da quarentena, mas, durante a pandemia, viraram uma febre. Tem vídeo de coral pipocando para tudo o que é lado, revelando um potencial criativo dos regentes e uma capacidade de pronta adaptação incrível. Entretanto, algumas pessoas dizem que tudo é fake, que isso não reflete a realidade dos corais e, ainda, afirmam que os cantores não estão aprendendo nada com isso.

“O pior cego é aquele que não quer ver”

O trabalho remoto, de fato, não é igual ao real, mas desqualificá-lo diante do aprendizado é um absurdo. Eu mesmo não imaginava que seria tão eficiente antes de atuar nesse meio. Muita gente ainda insiste em dizer que o presencial é melhor. Eu afirmo que depende do ponto de vista.

Relativização antropológica

Um dos traços do homo sapiens é a transmissão de conhecimento por meios não presenciais. Temos as pinturas rupestres, hieróglifos, livros, artefatos, e muitas outras formas de deixar um legado para a posteridade, que não necessitam de contato.

“Mas com música é diferente. Precisamos estar juntos.”

Por quê? O pássaro estava sendo visto pelos primeiros hominídeos quando o imitavam? Os tambores falantes utilizados na África Ocidental para comunicação à distância ficam um ao lado do outro na hora de conversar?

Para os ouvintes, o juiz da música é o ouvido. Este não é seletivo. Se ouve e acha bonito, não importa a forma como foi transmitido, e sim a experiência musical oferecida. Seu ouvido jamais será preconceituoso, quando se trata do prazer de ouvir.

Se for assim, então, toda  música gravada é fake

Uma música gravada jamais vai soar como ao vivo. Qualquer leigo em música entende o fato de que ir a um show traz uma experiência diferente daquela de ouvir um CD. Mas, nem por isso, alguém deixa de ouvir músicas gravadas.

Todas as gravações, sem exceção, precisam passar por uma edição mínima. Afinal, o som tem de ser transduzido a partir de microfones para caixas de som. E, nos dias de hoje, ainda passa pela conversão analógica-digital. O código binário, visto separadamente, nem lembra uma onda musical. Todo processo de reprodução de música em aparelhos eletrônicos exige uma modificação do som, para se adequar ao meio.

Ninguém gosta daquilo que não compreende.

Vamos concordar que, quem chega ao purismo de considerar sons gravados fake, precisa rever seus conceitos. Ao iniciar, se livrando de todos os aparelhos de som que tiver: televisão, computador, celular. Tudo é fake, partindo desse princípio. Mas não é esse o problema de quem defende um coro presencial como sendo mais verdadeiro. Na realidade, muita gente não consegue usar os meios tecnológicos por preconceito ou por incapacidade. Mas, para chegar ao ponto de dizer que tudo é fake e que não existe aprendizado, só posso concluir que a atitude é preconceituosa. Aqueles que possuem dificuldade estão aprendendo a lidar com o meio digital, desde o início da pandemia. Só cruzou os braços quem quis.

Edição é fake?

Algumas pessoas defendem o fato de que a edição dos áudios faz com que o resultado seja falso. Entretanto, quando dizemos para um cantor não executar determinado trecho ou pedimos para ficar ao lado de cantores mais seguros, já que não consegue manter a própria linha melódica, ou então, quando pedimos para que cante mais fraco disfarçando os erros, ou mesmo, quando modificamos a partitura para facilitar para o grupo, também estamos editando, só que em tempo real. A diferença é que a edição pelo computador é mais eficiente, pontual e segura. Basta retirar o trecho indesejado, e desaparece o risco do erro aparecer.

Edição pedagógica

Somente modificar trechos sem evidenciá-los não é uma atitude pedagógica. Penso que o melhor seja chamar atenção para os problemas de cada cantor de forma precisa. Como está gravado, é possível mostrar exatamente onde há problemas e corrigi-los. Mostrar o certo e o errado. Fazemos isso no ensaio presencial também, mas, de forma menos eficiente, afinal: “palavras o vento levam”. Não é possível voltar atrás e mostrar para o cantor exatamente onde ocorreram os problemas. Às vezes, somos até injustos dizendo a uma pessoa que ela errou, quando, na verdade, foi outra. A gravação faz mais justiça, nesse ponto. Quanto melhor o cantor gravar, menos a edição soará artificial. É a partir de correções assertivas e eficientes que o cantor se sente incentivado a gravar de novo corrigindo seus erros e contribuindo para que o som do coro melhore e ganhe naturalidade.

Um novo espaço de atuação

Não podemos esperar que um coro virtual soe como o presencial. São ambientes de produção diferentes. Quando cantamos em uma sala de concerto soamos diferente de quando cantamos em uma catedral. O ambiente sempre modifica o som, isso não é nenhuma novidade. O virtual é apenas mais um meio de produção que tem um som próprio e peculiar com possibilidades infinitas de exploração. Do mesmo jeito que nos adaptamos à acústica dos lugares, também podemos nos adequar ao ambiente virtual.

Sempre teve fake na música

Apenas como ilustração, vou trazer dois casos dentre vários possíveis que mostram algumas condições de falseamentos que sempre fizeram parte da atuação musical no canto coral:

1. Acompanhamento

Qualquer cantor concorda que cantar com acompanhamento traz mais segurança. Mas, se partirmos do fato de que isso só maquia uma inconsciência total do que é estar afinado? Ou uma falta de referência daquilo que precisa ser pleno para um cantor? Afinal, desse profissional, espera-se o total domínio da afinação. Em corais, quantas vezes aumentei o órgão para “disfarçar” a desafinação. Quantas vezes esmurrei o piano para não ouvir as "notas fora" dos cantores. Quantas vezes vi cantores saindo do ensaio super satisfeitos sem cantar uma nota certa, pois tomaram como referência o colega do lado ou o resultado geral do grupo. Quantas vezes puxei o andamento do coro pelo instrumento, pois, a regência em nada os afetava. Quantas vezes deixei de reger o grupo para auxiliar um cantor que de forma alguma conseguia executar o ritmo de forma correta. Esses são apenas alguns dos diversos aspectos de como o acompanhamento falseia a incapacidade do cantor de executar os sons corretamente e a do regente de afinar e conduzir o grupo. Se eu contar caso a caso não termino esse post.

2. Música à capela

Muita gente acha que essa música era para ser feita exclusivamente pelas vozes. Mas o termo, nem no idioma original, significa isso. A definição é óbvia: música para ser executada em capelas. Sendo que, na capela, só poderia fazer música com a voz. Até o século XVIII, todos os instrumentos eram utilizados como suporte à voz. O órgão, pasmem, era considerado voz. Portanto, até o século XIX, tudo o que era composto para coro à capela admitia o uso do órgão e, em muitos casos, o baixo contínuo, feito por fagote ou contrabaixo. No século XVIII, admitiram-se também os instrumentos de cordas friccionadas. Sabe para quê? Falsear as desafinações do coral. Ah não, peraí: para dar mais segurança aos cantores. Melhor: para abrilhantar os cantos em honra do Senhor. (!!!)

O ouvido não se importa se é fake

O ouvido não se preocupa sobre como a música foi feita. Nenhum diretor ou compositor procura “falsear” coisas, mas fazer acontecer da forma mais aprazível. Trouxe apenas algumas situações inusitadas para mostrar que muitos recursos já foram usados para resolver problemas com a dificuldade musical. Nem por isso as pessoas acham que, ao utilizá-los, estamos fazendo coisas falsas. Ninguém é totalmente independente para fazer música. Pedir ajuda a uma pessoa para resolver dificuldades é bastante natural. Portanto, antes de considerar que o meio virtual não traz uma experiência verdadeira, pense em toda a sua vivência musical. Se, em algum momento, precisou de alguém para ajudar com algo como: reforçar seu naipe, tocar uma linha melódica, ouvir alguém para cantar junto, entre outros falseamentos de deficiências de grupos corais, observe que, em boa parte dos casos, não é nada diferente de colocar o computador para fazer.

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Comentários

  1. Parabéns pelo texto Rafael!

    Concordo com você.

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  2. Parabéns pelo texto Rafael!

    Concordo com você.

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  3. 👏👏👏👏👏 Tive oportunidade de participar de coros virtuais com o Maestro Rafael Caldas na ACC neste período de isolamento e é um trabalho repleto de aprendizado, interação e dedicação de todo o grupo! Bom demais!

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  4. Adorei o artigo Rafael. Muito bem colocado. Parabéns 👏👏👏
    Pra mim este novo modelo de fazer música é fantástico. Não consigo ficar comparando o trabalho do coro remoto com o presencial. São distintos e ponto. Amo os dois!!

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  5. Excelente texto Rafael. Obrigada!

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  6. Parabéns maestro! Faço parte de um coro virtual e posso dizer que o aprendizado é enorme! E graças a essa possibilidade (do virtual) posso manter a paixão de continuar cantando, pois hoje moro a mais de 2 mil km de distância do coral que eu tanto amava participar!

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  7. Boa tade a todos.
    Eu quero dizer amo os 2 modelos de Coral , cada um com suas vantagem. A diferença é que, no presencial agente faz amizades, conheci outras pessoas, mas no aproveitamento, o virtual é bem melhor pirque agente se conhece melhor, se ouve melhor e se aprende com maior facilidade. Sem contar a comodidade que você ñ precisa sair da sua casa muitas vezes na chuva, mesmo sendo de carro, mais é incômodo. Eu amo o coral virtual

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