A tecnologia é excludente?

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Com as demandas do uso de ferramentas tecnológicas para o canto coral durante a  pandemia, muita gente considerou que as abordagens seriam excludentes, uma vez que não sabiam manusear os equipamentos, para atuarem no ambiente de produção online. Ora, uma tecnologia não pode segregar ninguém. Quem exclui alguém de uma atividade é a própria pessoa. Uma coisa é a dificuldade, outra coisa é a falta de disponibilidade para aprender algo novo. São o cantor e o regente que decidem usar o aparato, não é o aparato que escolhe quem vai usá-lo. Portanto, sob este olhar, só existem duas maneiras de haver exclusão:

  1. o cantor escolher não usar as ferramentas
  2. o regente não ensinar o cantor a usá-las

Em ambas as situações não foi a tecnologia que excluiu, foram as pessoas que se omitiram, cada uma à sua maneira.

Demandas para a educação no século XXI

Durante a pandemia, tive a oportunidade de ler mais sobre o assunto, e os artigos acadêmicos concluem que não basta saber cantar, ou tocar, para tudo dar certo no ambiente virtual. É necessário saber transduzir o som. Ou seja, a partir de microfones, alguns periféricos, e com o devido preparo do ambiente, saber como gravar e enviar o som. Portanto, preparar o cantor para tal se tornou uma atribuição do regente, revelando assim seu papel de educador digital.

Todos concordam que um professor tenha que dominar os meios tecnológicos de ensino, para que nossas crianças estejam preparadas para o futuro, para o educador musical, as obrigações são as mesmas. Por isso, faz parte de seus atributos ensinar a transmitir. E, faz também parte da formação musical do aluno aprender a fazê-lo. São as demandas do futuro que estão eclodindo e impondo novas condições de atuação musical.

As barreiras do ensino digital

Mas as barreiras do ensino passam por problemas ainda mais complexos, especialmente para aqueles que não tiveram uma “pré-escola” digital. Nesta hora, lembro da música, de Gil,  “Pela Internet”:

“Criar meu web site

Fazer minha home-page

Com quantos gigabytes

Se faz uma jangada, um barco que veleje

Que veleje nesse infomar”

Para quem não sabe, esta música foi lançada em 1997. Se essa sopa de termos não fez sentido para quem está lendo, ou ouvindo, significa que esse legente/ouvinte está na “pré-escola digital”. Ou seja, não sabe nem por onde começar a atuar no ambiente virtual. Trata-se de um analfabeto digital, impedido de participar de qualquer atividade on-line. É como alguém que não consegue nem chegar à escola por conta própria, ou alguém que deseja desenhar ou escrever sem saber pegar no lápis.

Neste caso, não foi nem o mestre, nem o aluno, que se excluíram de determinada atividade, e sim as demandas de um mundo que se ergue há mais de vinte anos, exigindo conhecimentos informacionais. Entretanto, com o tempo em que esta tecnologia está disponível, não há muita desculpa para essa exclusão. Pelo menos nas grandes metrópoles, o acesso à internet é mais fácil do que a um banheiro público. Sob este olhar, a exclusão digital revela as mesmas mazelas da evasão escolar. Ou seja, a pessoa sai da escola e fica despreparada para o mundo atual. A pessoa que não se interessa por aprender a usar os meios digitais fica, por sua vez, despreparada para atuar no ambiente virtual. Consequentemente, também fica despreparada para o mundo atual.

O que fazer?

Se o cantor está na “pré-escola digital”, precisa urgentemente encontrar um professor de informática. Não porque precise aprender a usar as ferramentas para o ensaio virtual ou para a aula de música on-line, e sim porque o mundo atual o exige. Diversas tarefas podem ser feitas pelo smartphone. Então, que tal aproveitar para fazer um curso on-line de informática? Aprender conceitos básicos como “site”, “navegador”, “Windows”, “web”, “blog”, etc.

Não falta equipamento

Com o advento dos smartphones, o acesso à informação não apresenta mais dificuldade. O problema é saber chegar na informação. Pesquisas apontam que, no Brasil, há mais pessoas com acesso à internet do que ao saneamento básico. Ou seja, boa parte da população tem um smartphone com internet nas mãos, mas não sabe usar. Ler o manual dos equipamentos é uma ótima maneira de economizar com as aulas de informática. Mas o reflexo natural de muitos é jogar fora o guia, e todo o conhecimento nele contido. Às vezes descartam o manual e guardam a caixa. Entretanto, o manual é um livro maravilhoso, escrito pelos fabricantes dos aparelhos. Quem melhor do que eles para ensinar a usá-los?

Portanto, antes de dizer que seu regente escolheu um recurso tecnológico que segrega, pense se o seu interesse por inovação condiz com o seu conhecimento sobre o tema. Assim verá que, muitas vezes, não é o maestro que exclui, mas o próprio cantor, por falta de entusiasmo por aprender algo novo.

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Apocalipse Coral

Comentários


  1. Muito bom o artigo e as comparações feitas sobre aprendizado da tecnologia,sua percepção e a forma como muitos vêem sua aplicação .
    Realmente ja vem de algum tempo toda essa informação , porem e na forma como hoje percebemos ,o mundo divital é ainda muito novo.
    No canto coral e sua formação virtual é algo novo para a maioria dis grupos e ate numa visão mais abrangente de Brasil, isso ainda é novissimo.
    Achei o artigo muito bom e abre para varios questionamentos.
    Tenho que concordar que a exclusão é realmente feita pelo próprio participante.
    Tudo que é novo exige maior atenção e aprendizado .Nem sempre as pessoas estão disponiveis para as mudanças inclusive em suas atividades diárias.

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  2. Artigo muito bom. Neste período de isolamento social muitas descobertas na área tecnológica foram feitas, o que possibilitou quase manter as atividades que antes eram presenciais. Cabe estarmos abertos às novidades e ter vontade de aprender! Muita coisa interessante está disponível e faz muito bem utilizá-las. Estou tendo uma ótima experiência com as novas metodologias na área do canto coral!

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