Mário de Andrade e o canto coral: a voz da identidade nacional
Quando se fala em Mário de Andrade, a maioria das pessoas pensa em Macunaíma. Mas Mário era, antes de tudo, professor de piano, um músico profissional que escrevia por paixão. Viveu de música e escreveu quase como hobby. Esse detalhe importa, porque foi do lugar de músico que ele pensou o que seria, de verdade, uma música brasileira. E, nesse pensamento, o canto coral ocupa um lugar central.
O Brasil que "pega emprestado": Mário de Andrade e a antropofagia
Em 1928, Mário publicou o Ensaio sobre a Música Brasileira. No mesmo ano, Oswald de Andrade lançava o Manifesto Antropofágico, a ideia de que o Brasil "devora" a cultura do mundo e a transforma em algo seu. Mário enxergou algo parecido: um país jovem, formado por empréstimos culturais, que consumiria de tudo. Ele próprio usa a expressão "pegar emprestado". Mas Mário foi além. Para ele, nos países em que a cultura chega de empréstimo, a arte passa por três fases:
- A fase da tese nacional: o artista decide, conscientemente, que precisa fazer arte brasileira.
- A fase do sentimento nacional: o brasileiro já sente brasileiramente, mas ainda se esforça para isso.
- A fase da inconsciência nacional: só aqui, nas palavras dele, "a sinceridade do hábito e a sinceridade da convicção" coincidem. Em outras palavras: a arte é verdadeiramente nacional quando deixa de se esforçar para ser nacional e simplesmente é.
Indivíduo e nação: a teoria das três fases explicada
A musicóloga Elizabeth Travassos explica que Mário traçou uma homologia entre indivíduo e nação. O artista individual extrai da sua vida interior uma criação bruta e depois a refina. No plano coletivo, o processo é o mesmo: o "povo" ocupa o lugar do inconsciente, de onde nasce a expressão autêntica, e os compositores formados nas escolas transformam essa matéria-prima em obra de arte. Isso explica por que, no começo, os compositores deveriam militar pela nacionalização mesmo sacrificando o impulso expressivo. Coletar cantigas populares e harmonizá-las era considerado tarefa "humilde demais" para quem sonhava com originalidade. Mas era assim que se adquiria o gosto pela música popular. Vencida essa etapa, os artistas fariam simplesmente música nacional, e a expressão individual passaria a ser, automaticamente, expressão nacional.
Se Mário já pensava assim nos anos 1920, antes mesmo dos primeiros Desfiles de Escolas de Samba (1932), dá para imaginar o que diria diante dos festivais de MPB, da Tropicália e do rock brasileiro. Aposto que seria um entusiasta, embora talvez com algumas opiniões conservadoras de sua geração. Impossível saber.
Por que o canto coral é o fundamento da música nacional em Mário de Andrade
Aqui está a parte que mais me interessa como regente e pesquisador. Mário via a harmonia como algo universal. Para ele, as técnicas harmônicas nascem de indivíduos e, se têm valor, logo se espalham pelo mundo, perdendo qualquer caráter nacional. Seu argumento é que seria "absurdo pretender harmonização brasileira", já que nem Alemanha, Itália ou França jamais tiveram uma.
Se a harmonia é universal e é um intelecto superior da música, onde ela se vive de forma mais direta? No coral.
No piano e no violão, a mecânica do corpo já entrega tudo aglutinado: uma mão toca vários sons de uma vez, e você não vivencia as sonoridades separadamente. No coral, cada pessoa é uma nota. Ninguém faz harmonia sozinho, só com o outro, usando o que há de mais primitivo no fazer musical: a voz humana. Juntando essas duas ideias, fica claro que Mário tinha no canto coral o alicerce da música nacional. Não por acaso, Villa-Lobos levou o ideal do canto orfeônico às escolas durante o governo Vargas, mobilizando uma geração inteira de professores dedicados a arranjar. E essa cultura do arranjo de música popular brasileira continua viva, sendo a espinha dorsal dos corais de hoje.
Arranjo coral brasileiro: os compositores que buscaram a expressão nacional
Mário não ficou só na harmonia tradicional. Via nas vanguardas de seu tempo possibilidades para a música brasileira. E, ao lado dele, havia um exército de compositores e arranjadores em busca dessa expressão: Alberto Nepomuceno, Villa-Lobos, Camargo Guarnieri. Nas escolas, João Baptista Julião e Fabiano Lozano. E, o objeto do meu doutorado, Aricó Júnior.
Hoje, as provas dessa tese aparecem em várias vertentes. Vamos ouvir algumas.
Música folclórica arranjada para coral
Em Meu limão, meu limoeiro, que fiz com o Choir at Home, a canção folclórica ganha harmonia coral:
Música de concerto: Villa-Lobos e o Choros nº 10
Harmonia quartal: Tutu Marambá
Em Tutu Marambá, de Antonio Guerreiro, que tive a oportunidade de reger, as vozes caminham em quartas, como nos acordes do violão:
Atonalismo: Yanomami, de Marlos Nobre
E no auge do atonalismo, temos Yanomami, de Marlos Nobre:
Atonal e quartal ainda são "empréstimo": a segunda fase de Mário
Há um ponto delicado aqui. Tudo o que é atonal ou quartal ainda é, do ponto de vista dos usos, influência europeia. Vê-se uma técnica usada para outra coisa e aplica-se aqui. É exatamente o "pegar emprestado" de Mário. Isso não está na 3ª fase, mas na 2ª, quando se busca enfiar o nacional dentro daquilo. Pode haver imprecisões na minha leitura, mas tudo o que parte da música de concerto parte, de algum modo, do viés europeu.
Isso não significa que tudo o que vem da sala de concerto pertence à 2ª fase. O Brasil assimila tudo e torna seu, e o próprio Mário defendia reagir ao estrangeiro pela adaptação, e não pela recusa. Há obras de concerto que digerem a influência europeia a ponto de já não se perceber a costura. O disco Vozes do Brasil, do conjunto Calíope, reúne várias obras de Villa-Lobos nesse sentido, e “Estrela é Lua Nova” é um bom exemplo.
O que estou separando é outra coisa: a obra pensada a partir de uma técnica ou de uma vertente composicional, à qual se acrescenta o nacional, e aquela que já nasce falando a língua daqui. Acredito que a terceira fase vem do que é autenticamente brasileiro: aquilo que surge sem pensar muito, naturalmente na linguagem musical, sem forçar a barra para uma vertente composicional específica. E que não precisa, necessariamente, habitar a sala de concerto. É algo que está dentro do Brasil e se comunica com o Brasil. Nasce da terra como uma planta nativa, sem precisar ser plantada, transplantada de outro lugar, adaptada ou enxertada.
Mas “nativo” aqui não quer dizer original nem puro. Nada na cultura é. Tudo foi assimilado, misturado, devorado, como a própria antropofagia já dizia. O que importa não é de onde veio a semente, e sim que ela já criou raiz: algo que só se reconhece ali, e em nenhum outro lugar, e que também não busca validação de fora.
A terceira fase hoje: grupos vocais brasileiros e a "inconsciência nacional"
No tempo de Mário, talvez isso só existisse no folclore. Hoje está na música brasileira. Por isso, para mim, o auge da 3ª fase está nos arranjos de grupos vocais como Garganta Profunda, Céu da Boca, Ordinarius, Equale e BR6, entre outros, que fazem repertório de harmonias complexas com música brasileira autêntica. Dá para incluir também nomes menos acadêmicos, como Os Cariocas, MPB4, Quarteto em Cy, Boca Livre e 14 Bis.
Nesses grupos vemos o rock brasileiro, a MPB, o maracatu, o frevo, o samba, o pagode e muito mais, da linguagem mais simples à mais rebuscada, mas sempre acessível a qualquer ouvido brasileiro que se reconhece ali.
Mas onde está o brasileiro nisso, se a harmonia é universal? O próprio Mário já respondeu que ela não é nacional, e muitos desses acordes vêm do jazz e da tradição europeia. O que reconhecemos como nosso está em outras camadas: no repertório, que é de música brasileira, no ritmo, com a síncopa e o balanço que Mário via como constância do nosso populário, na prosódia do português cantado e no timbre. Mário chegou a defender o timbre da voz nacional, que alguns chamavam de feio só por fugir do padrão europeu. E a voz ocupa um lugar tão central no pensamento dele que, em Música, doce música, há vários artigos com este mote. A harmonia é a ferramenta emprestada. O que se faz com ela é daqui. Um exemplo magnífico é o pagode do Fundo de Quintal, "Conselho", cantado pelo Arranco de Varsóvia:
Comunicação plena: o exemplo do Equale em "Expresso Gil"
Aqui creio estar plena a 3ª fase de Mário, que se orgulharia de ver o movimento vocal brasileiro se impor, mesmo sem apoio da própria classe, diante de um país com tanta dificuldade de reconhecimento cultural.
Música é profissão, não hobby: o que Mário de Andrade diria hoje
Voltando ao começo: Mário vivia de música e escrevia por hobby. Hoje, muita gente acredita que música é só passatempo. Esse pensamento popular se reflete em governos avessos à cultura como consciência nacional e permissivos com uma música decadente, voltada ao enriquecimento ilícito e que ainda traz muitos males sociais.
O Mário que viu no sertanejo o homem rural e no samba o homem urbano talvez se decepcionasse com as mazelas sociais de alguns dos músicos mais proeminentes da mídia e com a farra das prefeituras. Ainda precisamos de gente que pense no Brasil e na sua cultura. Mas, apesar de tudo isso, a voz brasileira resiste.
O brasileiro canta: a tradição vocal que a gente nem percebe
Mesmo com uma expressão vocal tão forte, ela segue pouco valorizada e pouco reconhecida, inclusive nos meios musicais. E ainda assim persiste. Persiste porque o brasileiro ama cantar de verdade.
Meus dois filhos cantaram antes de falar. Vejo muitos bebês e crianças cantando antes das primeiras palavras, e muitos pais sequer sabem identificar isso. Acredito, inclusive, que nenhuma criança no mundo fale antes de cantar. Pensamos em música o tempo todo, mesmo sem perceber, e é daí que nasce a planta nativa que Mário de Andrade imaginou.
Para desconstruir a ideia de que “aqui não temos tradição vocal”, escrevi o artigo O Brasil tem tradição vocal sim!. Nele, falo mais sobre o assunto e deixo uma playlist com mais de 8 horas de música vocal brasileira que, no meu ponto de vista, se encaixa perfeitamente na 3ª fase de Mário de Andrade.
Vá lá, leia o artigo, aperte o play e depois me conte nos comentários: qual dessas músicas faz você se reconhecer?
Onde ler as obras citadas neste artigo
Este artigo se apoia em três livros. As obras de Mário de Andrade (Ensaio sobre a música brasileira e Música, doce música) estão disponíveis em edições recentes na Amazon, assim como o livro de Elizabeth Travassos.
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Mário de Andrade, Ensaio sobre a música brasileira: comprar na Amazon
Mário de Andrade, Música, doce música: comprar na Amazon
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