Quem tem medo de cantar?
Quem tem medo de cantar? A ciência por trás da baixa autoestima no coral
Sabe aquela sensação de que certos padrões da vida são tão repetitivos que a gente até prevê o que vai acontecer? Quase todo mundo que frequenta o meio coral tem a intuição de quem são os cantores mais inseguros. Mas, em algum momento, alguém decide que a intuição não basta e resolve investigar academicamente o porquê desse padrão ocorrer.
Foi exatamente isso que motivou um grupo de pesquisadores — três fonoaudiólogos e um regente de Bauru — a publicar um estudo na Revista CEFAC sobre a autoavaliação vocal de cantores de coral.
Inexperiência gera insegurança?
A pesquisa concluiu que pessoas com menos experiência vocal possuem uma autoestima mais baixa para cantar. Pode parecer óbvio, mas o papel da ciência, muitas vezes, é justamente provar o óbvio. Afinal, no mundo da música, sempre conhecemos aquele cantor iniciante que, mesmo sem técnica, "se acha" o novo Pavarotti. Contudo, o estudo mostra que, estatisticamente, o padrão é o oposto: o inexperiente tende a não se valorizar.
Além da experiência, o estudo trouxe um dado curioso sobre as vozes graves. Contraltos e Baixos apresentaram menor autoestima vocal por terem mais dificuldades com a passagem da voz e com as notas agudas.
Onde o estudo desafina
Apesar de levantar dados interessantes, o artigo possui uma metodologia que merece ser questionada por quem entende do riscado:
- O fator regente: Todos os cantores avaliados atuavam sob a batuta do mesmo regente. Isso cria um viés enorme, pois a didática de um único mestre tende a homogeneizar o comportamento do grupo, independentemente da personalidade individual. A autoestima do cantor é, em grande parte, moldada pela interação com quem comanda o ensaio.
- A falta de "chão" musical: O estudo aponta a dificuldade com agudos, mas ignora o repertório cantado, a extensão exigida e, principalmente, a técnica de passagem. Não há menção às notas musicais específicas ou à transição entre registros (modal, elevado, sub-registros). Fica a impressão de que a análise técnica da voz foi deixada de lado em prol da análise estatística fria.
A generalização neste tipo de pesquisa é um convite ao erro, mas se aventurar a investigar o tema demanda uma coragem que, por si só, já é uma vitória.
Reflexão ou Estereótipo?
Embora a interpretação dos dados pareça limitada pelo conhecimento técnico dos pesquisadores, o trabalho não deve ser descartado. Ele nos faz olhar para o próprio coro e perguntar: _"No meu grupo, esse padrão também se repete?"_ Se a resposta for sim, a pesquisa já cumpriu seu papel de validar uma percepção comum.
Fica a provocação para você, cantor:
- Você se sente inseguro por falta de treino formal?
- Você acredita que ter uma voz grave e não alcançar agudos estratosféricos é sinônimo de uma voz "pior"?
Talvez a pesquisa apenas reforce axiomas (verdades absolutas) e estereótipos já enraizados na sociedade sobre o que é uma "boa educação vocal", ou talvez ela realmente tenha tocado na ferida da realidade dos coros amadores.
Quer tirar suas próprias conclusões? Leia o estudo completo na Revista CEFAC através deste link: https://www.scielo.br/j/rcefac/a/Q36WyC6TPWZWcTdgDtWcWRp/?lang=pt

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