Canto coral e cultura hippie

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Canto coral e cultura hippie: cantando California Dreamin'

canto coral e cultura hippie na música

O que o canto coral e a cultura hippie têm em comum? Você pode imaginar que não possuem muitas afinidades, mas, se não fosse o movimento hippie, o canto coral perderia uma ótima maneira de se comunicar com o público jovem da década de 60. Por outro lado, se não fosse a tradição do canto coral, as músicas hippies seriam bem mais pobres.

A realidade é que o canto coral é muito versátil e se adequa bem a qualquer estilo. E, quando se trata de cultura hippie, a troca é muito rica.

Movimento hippie e tradição coral

Artistas como os Beatles; The Mamas & the Papas,  Bob Dylan e muitos outros beberam bastante da tradição coral, especialmente da forma afro de cantar nas Américas. A técnica vocal utilizada legou ao canto coral uma sonoridade especial. Um jeito único de se expressar com um som jovial, retirando o peso "gorduroso" da sonoridade do coral tradicional.

Apoiado no movimento da contracultura dos anos 60, os hippies valorizam a natureza, defendem o vegetarianismo, o consumo de alimentos naturais, o uso de materiais reciclados, repudiam a guerra, defendem o estilo de vida simples, sem extravagâncias e luxúrias. Daí a inspiração em figuras como Mahatma Gandhi, Jesus Cristo e São Francisco de Assis.

Partindo desses valores, a sonoridade hippie dificilmente é espalhafatosa. Pelo contrário, visa a forma mais simples de fazer música. Usando instrumentos portáteis, cantando à meia voz, criando um ambiente intimista, despreocupado e aconchegante.

Canto coral e moda hippie

A contracultura vai de encontro a todos os valores que remetem à superioridade cultural europeia. Principalmente os que enaltecem a supremacia branca em detrimento das etnias menos favorecidas. 

Todos os elementos que lembram a cultura da alta classe europeia são repudiados. Isso se reflete nas vestimentas, que são influenciadas pelos cortes indianos, as cores africanas, os artigos indígenas.

O uso de roupas rasgadas e coloridas revolucionaram a indumentária do canto coral. Os uniformes monocromáticos ficaram fora de cogitação. A contracultura trouxe mais alegria, colorindo as roupas e dando maior liberdade, permitindo que os cantores se vistam como se sentem bem, priorizando o bem estar e o conforto.

Canto coral político

Os hippies são contra qualquer tipo de guerra. O slogan paz e amor carrega esse significado. Assim, a música é usada como um meio de protesto, disseminando os ideais e denunciando as ações que ferem a dignidade humana.

Na América Latina, a contracultura ganhou maior força contra as ditaduras. Com o movimento Nueva Canción, diversos artistas entoaram canções de protesto. No Chile destacam-se Víctor Jara, Quilapayún e Violeta Parra; na Argentina, Mercedes Sosa e Facundo Cabral; no Uruguai, Alfredo Zitarrosa e Los Olimareños. 

No Brasil, a MPB também recebeu influências. Compositores como Caetano Veloso, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Milton Nascimento, dentre outros, cantaram questionamentos sobre a cultura dominante, sobre as relações sociais e políticas do país e sobre as condições de vivência dos brasileiros. No tropicalismo, ficam óbvias as cores e vestimentas próximas à cultura hippie com os cortes e indumentárias populares brasileiras.

Canto coral, feminismo e emancipação sexual

Na MPB, a emancipação da mulher é evidente. A música passa a admitir personagens femininos, temáticas femininas, denúncias sobre a condição das mulheres em um mundo machista e misógino. Rita Lee e os Mutantes são um ótimo exemplo da resistência feminina.

Temas eróticos são revisitados, dando maior evidência à liberdade sexual. A prática do nudismo se tornou mais comum. Mostrar o corpo como é naturalmente, sem preocupar-se com os julgamentos do pudor, como expressão da liberdade total não violenta. Vemos isso na forma de se expressar corporalmente em Ney Matogrosso dos Secos e Molhados, por exemplo.

A experiência com California Dreamin'

Cantar músicas influenciadas pelo movimento hippie não significa concordar totalmente com o que dizem, mas, em viver um pouco de uma realidade que mudou a maneira de encarar as músicas de tradição europeia. De ressignificar e buscar uma outra forma de fazer. Ou de, simplesmente, aprender a compreender o outro, a olhar o outro com mais atenção.

Nesta semana, lançamos a música California Dreamin' do grupo The Mamas & The Papas. Pudemos explorar a sonoridade vocal da obra com perguntas e respostas e fazer uma versão do solo original na voz.

California Dreamin talvez seja a música mais famosa do grupo e fala sobre um inverno estranhamente frio na Califórnia, comparado a Los Angeles, com uma cena de igreja meio confusa.

Não é algo feito para ter muito sentido, já que uma das premissas do movimento hippie é a alteração do estado de consciência pelo uso de drogas com o suposto objetivo de "transcender" a realidade. 

Música hippie e arranjos corais pedagógicos

O arranjo de Roger Emerson traz um ótimo efeito e é super didático, proporcionando uma experiência coral autêntica dentro do repertório hippie. Segue, mais ou menos, a estrutura da gravação original, onde as contraltos cantam sozinhas, e, em seguida, são ecoados pelo restante do coro.

Apenas o trecho onde há um solo de flauta na versão original, são inseridas entradas cerradas das vozes que geram um efeito crescente que não deixa nada a dever.

Assista abaixo California Dreamin’ cantada pelo Choir at Home:

Estética hippie no canto coral

California Dreamin é uma das raras peças populares que foi concebida para cantar em grupo. Ninguém consegue fazer sozinho. Na mente sempre vem as respostas e, se alguém puxa o canto, provavelmente será ecoado por outro.

Cantar essa música é fundamental, pois além dos aspectos técnicos, próprios do canto coral tradicional, remete a temáticas de um movimento que até hoje influencia a forma de pensar e agir da sociedade.

Um coral para cantar música hippie e muito mais

Com o objetivo de promover o enriquecimento cultural, no Choir at Home cantamos de tudo. Acreditamos que quanto maior a riqueza estética de um conjunto, maior o conhecimento musical. 

Se você gosta de compreender os movimentos sociais a partir da música, o Choir at Home é excelente. Proporciona toda a compreensão técnica e estética do repertório e ainda levanta reflexões sobre o tema em conjunto, proporcionando debates e elevando a cultura geral de todos os integrantes. 

Acesse o link abaixo e saiba mais sobre a atividade:

Comentários

  1. Parabéns,maestro! Muito interessante os temas abordados aqui! O canto coral está se diversificando, cada vez mais, com o objetivo de agradar todo tipo de público e a todas as idades! Já participei de vários encontros de corais e nunca ouvi nenhum cantando California Dreamin! Ficou muito bonita e diferente! Gostei bastante!

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