O canto coral em gerações - Quem é o menino

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O canto coral em gerações na música quem é o menino

Você pode não conhecer a música “quem é o menino”, mas é provável que tenha ouvido a versão original chamada Greensleeves: uma canção folclórica bretã famosa mundialmente, que atravessa o canto coral em gerações.

No século XIX, a música ganhou uma letra natalina e se tornou um dos hinos mais cantados nas igrejas protestantes. Neste natal, o Choir at Home realizou Quem é o menino em um arranjo que faz paralelos entre tradição e modernidade. 

Foi possível

  • Aprender sobre música e folclore;
  • Observar questões de direito autoral;
  • Conhecer as diversas versões de Greensleeves;
  • Fazer paralelos entre folclore e religiosidade;
  • Observar as ressignificações da música ao longo do tempo.

Canto coral e direito autoral

A sonoridade de Quem é o menino remete às práticas da idade média e é cercada de histórias. Já foi atribuída até ao Rei Henrique VIII, mas, na verdade, o primeiro registro foi feito em 1580, no nome de Richard Jones em formato "broadside":

Esse tipo de publicação era comum em publicações de poesias e músicas na Grã-Bretanha durante a renascença. Trata-se de uma folha de papel impressa em um ou dois lados. O interessante é que essa mesma música foi registrada por pelo menos mais três autores. Alguns deles, registraram mais de uma vez, inclusive Jones.

Greensleeves é um ótimo exemplo da "corrida" para a obtenção de direitos a partir da publicação de algo construído coletivamente e transmitido oralmente. Os acordos sobre a distribuição de direito autoral iniciam na Europa por volta do século XV e XVI com a difusão da imprensa, e até hoje, são baseados no direito civil. Ou seja, a obra de arte é tratada como propriedade privada. 

Nesse modelo, o que prevalece é o primeiro registro publicado. Tornando o documento público, ficava registrada a autoria. Daí, os mais oportunistas faziam  "usucapião" do folclore nos países onde a distribuição dos direitos era mais organizada. 

A partitura era o meio mais difundido de publicação musical

Como não havia meios de gravação, a publicação impressa era uma das melhores formas de ganhar dinheiro com música. Assim, os editores publicavam os impressos o mais rápido possível, de modo a obterem os direitos pela obra. 

O folclore é um manancial de repertórios que podem ser publicados e que, a princípio, não pertencem a ninguém. Como não havia a noção de construção coletiva e de autoria compartilhada por comunidades, povos e nações, se tornou muito comum esse tipo de publicação. 

Esse fenômeno acontece até hoje. É comum haver disputas judiciais de comunidades que reivindicam os direitos de uma obra que foi concebida coletivamente. Aqui no Brasil, isso é muito comum nas músicas de matriz africana, como o jongo, a capoeira e até o samba. 

Greensleeves e Quem é o menino

Quem é o menino é uma adaptação cristã da música Greensleeves, transformada em uma canção de Natal em 1865 pelo escritor inglês William Chatterton Dix. A versão brasileira é uma adaptação da letra de Dix para o português. "What child is this", aqui, se transformou em "quem é o menino". 

Durante o século XIX, o movimento artístico em voga é o romantismo e um dos traços relevantes é o nacionalismo. Nesse momento, a Inglaterra amargava a falta de grandes compositores. Durante todo o período barroco e clássico, os ingleses importavam e naturalizavam compositores alemães. Isso ocorreu com Handel, durante o período barroco, e Haydn, durante o clássico. Ambos morreram ricos, financiados pela corte e a alta burguesia inglesa. 

Essa ausência de compositores fez os ingleses buscarem suas raízes na música folclórica e no repertório renascentista. O nome "carol" foi atribuído às canções de Natal, como uma transposição do termo francês "noel", aplicado às canções natalinas populares francesas. Inclusive, muitos carols são noels com letras em inglês. 

Além da ausência de um grande compositor, e com maior parte das canções natalinas sendo adaptações de canções francesas, era imperativo algo que fosse genuinamente inglês para o Natal. Assim, “Greensleeves'', uma canção folclórica bretã, ganhou uma segunda letra que narra o episódio da adoração dos pastores e dos magos na natividade de Jesus Cristo. 

Sendo Dix um editor de hinos cristãos, sua obra se tornou mais relevante nas igrejas protestantes. A tradição calvinista tornou seu hino mais famoso entre os cristãos puritanos. Assim, "what child is this" é mais difundido nos Estados Unidos do que na Inglaterra. E, a versão brasileira é mais conhecida nas igrejas evangélicas que herdam a tradição batista e presbiteriana.

Arranjos corais para a atualidade

No Choir at Home escolhi fazer essa música com o arranjo de Russell Robinson, regente amplamente premiado como educador musical nos Estados Unidos. Sua produção dentro do repertório renascentista é evidente, difundindo edições acessíveis a diversas camadas, faz a "tradução" de obras que seriam de difícil compreensão para leigos. 

O efeito mais evidente no arranjo de Robinson está na rítmica resultante da alternância de compassos.  Baseada em Greensleeves, a música está originalmente em compasso composto. Assim, temos um 6/8. Mas, Russell Robinson observou a comunicação óbvia entre o compasso composto 6/8 e o simples 3/4. Acontece que esses compassos possuem o mesmo tamanho, mas a marcação do pulso é diferente. 

Enquanto o compasso 6/8 tem dois pulsos divididos em três partes, o 3/4 possui três pulsos divididos em duas partes. Ao dividir, percebemos que, em ambas as situações, obtemos 6 partes. No 6/8 organizadas de 2 em 2 grupos, divididos em três partes, e no 3/4, de 3 em 3 grupos, divididos em duas partes. Essa alternância causa um efeito rítmico próprio: uma atmosfera única e distinta ao arranjo. 

Compasso 3/4 e 6/8.

Técnicas simples que trazem uma música, que pode ser vista como antiquada ou banal, para um ambiente mais contemporâneo e excepcional. Dando singularidade à interpretação e mostrando que as obras não precisam ser congeladas num formato único, que podem ser revistas e ampliadas para o enriquecimento da experiência estética. 

Recursos estruturais

A música possui forma responsorial. Esta forma advém da prática católica, onde os responsórios são entoados por um solista e respondidos pela congregação - o conjunto de fiéis presentes no ritual. É dessa forma que vêm a construção da maior parte das músicas que ouvimos hoje. Pois é dela que vêm a estrutura "estrofe e refrão". 

Assim, "quem é o menino" tem um formato que alterna estrofe e refrão. Nas estrofes conta-se a história, descreve-se a cena do nascimento de Cristo vista pelos pastores. No refrão, temos a adoração a Cristo falando sobre suas qualidades messiânicas, sua nobreza e sua santidade. 

Como a história é longa e a melodia repetitiva, o arranjo traz algumas soluções que eliminam a monotonia. Além das questões musicais, a versão original possui muitas estrofes e mais letras para o refrão. Algumas até um pouco mórbidas, pois tratam da crucificação e dão um ar lânguido à música. No arranjo feito pelo Choir at Home, essas partes foram retiradas para manter a interpretação com o astral elevado.

A importância de quem é o menino para o canto coral

Fazer obras como quem é o menino é entender música sobre diversos aspectos. Observar as questões históricas, os movimentos de mercado que geram diversas perspectivas econômicas, o reconhecimento do direito autoral. Para além das questões estéticas e musicais, a obra desperta discussões em diversos níveis. 

Fazer arranjos atuais da obra enriquece ainda mais o debate, pois acrescenta questões estéticas que jamais foram pensadas e que dialogam muito bem com a interpretação histórica. É possível que a música fosse tocada dessa forma na época, já que não havia a consciência e o uso dos compassos como nos dias de hoje. Por isso, a alternância de compassos é uma interpretação possível e nada distante de algo que poderia ter sido feito quando a música foi concebida. Sendo um recurso comum em música moderna, evidencia o diálogo entre tradição e modernidade.

Veja a versão cantada pelo Choir at Home no video abaixo:

Canto coral para todos

É muito bom quando uma obra pode ser reposicionada no tempo e, ao mesmo tempo, ser acessível a todos. No Choir at Home, o trabalho é direcionado para que os cantores tenham todo o domínio sobre a obra, proporcionando um aprendizado sólido e global.

Além de todos os materiais didáticos, temos aulas posicionando a obra historicamente e ilustrando as questões musicais que norteiam as escolhas interpretativas. Essas aulas ficam gravadas e acessíveis a qualquer momento, possibilitando o trabalho de forma flexível. Você pode assistir quando quiser, sem afetar o desenvolvimento do grupo. 

Isso torna o Choir at Home um coral completo. Tendo todos os recursos necessários para desenvolver a técnica vocal, a consciência musical e o aprendizado histórico das obras. 

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