O ouvido musical se desenvolve?

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Rafael Caldas explica como o ouvido musical se desenvolve.

Muitos acreditam que as pessoas já nascem com o ouvido musical pronto, mas será que é simples assim? Será que a música está reservada apenas àqueles que foram tocados pelas musas?

O ouvido musical do bebê

De fato, com 5 meses de gestação, o feto já está com o ouvido em desenvolvimento, e uma das primeiras formas de interagir com o meio externo é a audição. A partir deste ponto, o “idioma musical” começa a ser aprendido, assim como a língua materna.

O ouvido musical no ocidente

As músicas do mundo vão muito além do que conhecemos como música. Para algumas culturas, a música tem uma função ritual muito importante que, em certas situações, sequer podem ser referidas por esse nome, dada a altivez da situação onde é feita.

Não é plausível considerar o “ouvido musical” somente pelo olhar ocidental. Existem outros sistemas, que vão além do sistema tonal.

Na música ocidental, admitimos como o menor espaço entre as notas, um semitom. Em muitas culturas, admite-se quartos, oitavas e outras distâncias menores que o semitom. Isso aumenta a gama de notas e exige um “ouvido musical” diferenciado.

Reflexão antropológica

Se o bebê desenvolve a língua materna a partir do ventre, logo, aprende a música de acordo com a cultura onde está inserido. Existem tantas músicas quanto etnias no mundo, nem todas as pessoas possuem o ouvido musical ocidental.

Então, como explicar o desenvolvimento musical de crianças chinesas para música ocidental, por exemplo? Um treinamento eficiente em conjunto à disciplina de estudo que permite a qualquer um chegar nos objetivos musicais.

Não é o fato de falar chinês que faz as crianças aprenderem mais. Falar uma língua tonal como o mandarim e o cantonês pode até contribuir para a sensibilidade das alturas dos sons, mas, não é suficiente. Existem muitas outras atribuições necessárias, como questões motoras, rítmicas e cognitivas que tornam o ouvido musical um objeto complexo de entender.

O ouvido absoluto

Chamamos pessoas dotadas de ouvido absoluto aquelas que, ao ouvir um som, identificam imediatamente a nota musical. Muitos encaram isso quase como um “superpoder”. Muitos perguntam se é possível desenvolver este talento, mas, ouvido absoluto, na verdade, é uma questão de memória. Com um treinamento repetitivo, as pessoas decoram as alturas e, assim, conseguem identificar quais são.

O ouvido relativo

No entanto, as escalas mais comuns da música ocidental são as maiores e as menores. Ambas possuem sete notas, com leves desdobramentos na escala menor, cujo objetivo, a grosso modo, é se aproximar da sonoridade maior.

A extensão do piano é de 88 notas e a extensão musical pode ir além disso. Ora, se na maior parte da música ocidental usamos 7 notas, porque valorizar um método onde se espera decorar todas as notas musicais com exatidão?

Assim, a maior parte dos métodos de percepção musical focam o aprendizado nos modos musicais. Ou seja, você entende a relação das notas com o modo e assim observa como interagem dentro do sistema.

Na prática, um Dó Maior soa igual a um Ré Maior, com a diferença de um tom. Assim, não é preciso decorar todas as tonalidades, mas uma só, pois soam a mesma coisa com as diferenças de ponto de partida que pode estar mais acima ou mais abaixo.

Quando o ouvido absoluto é inútil

A fixação das frequências de cada nota musical só começou a ser convencionada a partir do século XIX, culminando na adoção da frequência de 440hz para a nota Lá 3. Isso significa que, antes disso, não havia nenhum acordo do que seria exatamente a altura de cada nota, podendo variar cerca de até 2 tons de um lugar para o outro.

Em algumas partes da Europa, o lá poderia soar um fá. Imagina alguém com ouvido absoluto nessa época? Com certeza não conseguiria se ajustar. Por isso, é provável que todos os grandes mestres, para poderem lidar com as variações de afinação dos instrumentos da época, tivessem ouvido relativo.

O ouvido musical da idade média

Na verdade, nem mesmo as notas musicais foram inventadas para serem absolutas. Quando Guido d’Arezzo propôs o seu uso, a única referência que sugeria era o emprego da palma da mão, quando apontava as falanges dos dedos e entoava as notas pelo nome. A nota inicial poderia ter qualquer altura, desde que o modo, a partir dela, fosse respeitado.

Ouvido absoluto não é grande coisa

O ouvido musical sempre se desenvolveu através de treinamento e dedicação. Dizer que não é capaz de aprender música porque não tem ouvido pra isso é, na verdade, uma desculpa para quem não está realmente disposto a se dedicar ao estudo. Portanto, o ouvido musical se desenvolve sim, e existem diversos meios de aprimoramento.

Meios de desenvolver o ouvido musical

  • Estudando percepção musical
  • Aprendendo um instrumento
  • Estudando formas musicais
  • Ouvindo repertórios musicais diversos
  • Entrando em um coral

O canto coral é a melhor forma de desenvolver o ouvido musical

Se você quer desenvolver o ouvido musical, a melhor forma é pelo canto coral. Desenvolver a musicalidade pelos instrumentos é excelente, mas como na maior parte deles o som está pronto, acabam se tornando uma “bengala”. Ficar dependente do instrumento não é uma boa situação para quem deseja ter um ouvido musical pleno.

Quando somos capazes de cantar aquilo que desejamos tocar, aí sim temos total domínio musical. Por isso, cantar em um coral é fundamental para quem deseja aprimorar o ouvido musical e se sentir capaz de se desenvolver na música.

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Comentários

  1. Assunto maravilhoso! Ontem eu entrei em uma discussão sobre ouvido absoluto... Disseram que eram Dom Divino, e eu falei que quando colocamos assim tornamos a habilidade inatingível, como foi dito aqui " um superpoder"

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    1. Não é? Aí está uma ótima desculpa para quem não está disposto a estudar...

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  2. Muito interessante o artigo! No meu caso, o estudo da partitura e a prática do solfejo melódico auxiliam muito a percepção musical e a aquisição de um ouvido musical.

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  3. Gostei muito da abordagem, com certeza o estudo e empenho do cantor de coro podem melhorar muito sua percepçao auditiva!!mesmo no caso de nao ter o chamado ouvido absoluto!

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  4. O assunto abordado é muito interessante e desconhecido pela maioria das pessoas! Eu só ouvir falar de ouvido absoluto com um amigo, que adquiriu essa percepção! Parabéns Rafael!

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  5. Excelente abordagem! Você desmistificou e abordou o tema realisticamente, como dedicação e estudo.

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