Resenha Coral - Motetos de Bach - The Monteverdi Choir & Eliot Gardiner

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Para muitos Bach é o pai da música. Observando pelo ponto de vista antropológico, a afirmação é absurda, mas sob o olhar espiritual, faz todo o sentido. Nietzsche, no texto "genealogia da moral",  mostra como o ideal cristão nos molda moralmente. Molda nossas leis, nossa maneira de ver o que é certo e errado, nossa maneira de lidar com o outro, nossos limites e muitas outras questões ligadas à moral. Bach, muito antes disso, já mostrava, em sua música, como tocar o coração do cristão, do cético e do ateu. O não cristão possui internamente uma moral cristã que é culturalmente construída, querendo ou não, a partir da escuta atenta e bem orientada, de alguma forma será tocado pelo compositor. Por isso, considero Bach um compositor de Deus e é, por conta dele que, apesar de não ter nenhuma religião, acredito em Deus. Hoje, a postagem é sobre os motetos de Bach regidos por Eliot Gardiner em álbum gravado pelo Monteverdi Choir.

Os motetos de Bach

Consideramos motetos as obras sacras compostas para coro à capela. Segundo o Dicionário Groove de Música, a escrita de motetos iniciou, no século XIII, a partir da prática do compositor francês Perotin e seus contemporâneos, na Notre Dame de Paris. Inicialmente, os motetos eram utilizados exclusivamente na igreja católica, mas, com o tempo, foram incluídos em outros espaços.
Uma característica dos motetos da idade média é a isorritmia, admitindo apenas um ritmo para todas as vozes que caminham por intervalos paralelos. Durante o renascimento, a polifonia horizontal prevalece, especialmente com as reformas impostas por Palestrina na música do rito católico. Giovanni Gabrielli foi um dos principais inovadores do moteto no século XVI, com o uso de coros divididos (cori spezzati), trazendo um efeito estereofônico pelos diversos posicionamentos corais dentro da igreja, e admitindo o uso do baixo contínuo (acompanhamento instrumental feito por instrumentos harmônicos, como órgão, alaúde, cravo e um instrumento grave fazendo os baixos, como violoncelo, fagote, viola da gamba e outros).
A tradição de Gabrielli foi uma das maiores influenciadoras da prática composicional protestante. Como a maior parte da composição coral de Bach é luterana, os motetos bachianos seguem esta tradição. São compostos para coro duplo por exemplo, os motetos Singet dem Herrn ein neus Lied, Der Geist hilft unser Schwachheit auf e Komm Jesu, Komm.
Os motetos de Bach, sem dúvida, ilustram o auge da composição para coro do período barroco. Do ponto de vista técnico, possuem todo o tipo de virtuosismo vocal pela quantidade de efeitos coloratura, ornamental, articulatório e outros. Além disso, a complexidade harmônica exige bom ouvido do cantor e bom gosto do regente para a mistura vocal.

The Monteverdi Choir

O Monteverdi Choir é um dos principais grupos corais em atuação nos dias de hoje. Fundado em 1960 por Eliot Gardiner possui gravações importantes do repertório coral erudito. Na minha opinião o The Monteverdi Choir é um dos grupos que possui as melhores gravações de música renascentista, barroca e clássica no mercado. Fazem tudo de maneira impecável e clara. Além disso, sob as mãos de Eliot Gardiner trazem interpretações únicas. Nos anos 2000 apresentou as 198 cantatas de Bach em turnê em mais de 60 igrejas na Europa e na América. Um projeto único que remonta às atividades de Karl Richter, que apresentava a obra de Bach pelo mundo com diversos grupos, inclusive no Brasil, com o Coro da Associação de Canto Coral, onde orgulhosamente trabalho.

Sir John Eliot Gardiner

Um dos principais regentes de música antiga atualmente é Eliot Gardiner. Possui um currículo espetacular com as principais obras para coro e orquestra do repertório erudito e sabe lidar muito bem tanto com orquestra como com coro. É fundador do English Baroque Soloists, orquestra que, sob suas mãos,  toca instrumentos antigos de maneira primorosa, tendo excelentes músicos que acompanham o The Monteverdi Choir em obras para Coro e Orquestra.
Gardiner não rege apenas essas orquestras, também é possível vê-lo à frente da London Symphony Orchestra, Viena Philharmonic Orchestra, Symphonierorchester de Bayerischen Rundfunks, Gewandhausorchester Leipzig e muitas outras importantes orquestras do cenário europeu. 
Gardiner é premiado pela Gramophone (2011), uma das principais gravadoras de música clássica do mercado, possui dois Grammy's, várias condecorações reais britânicas, é reconhecido internacionalmente como acadêmico na pesquisa em musicologia e entrou no Hall da Fama da Gramophone em 2012.

O Álbum

Os motetos apresentados pelo The Monteverdi Choir estão gravados, conforme fazia-se na época, com órgão e violoncelo realizando o baixo contínuo e, cada vez mais, os regentes vêm abandonando a ideia de fazer esse repertório totalmente à capela, visto que, além de dar ainda mais trabalho, fica fora do estilo. Utilizando o órgão com o timbre fechado e como um coadjuvante, o efeito fica mais autêntico e a afinação assegurada. Porém, não se engane, o uso do órgão e do violoncelo para contínuo não diminui em nada a dificuldade das obras. Lobet dem Hernn, alle Heiden, obra que inicia o disco, possui várias coloraturas que exigem agilidade vocal; Singet dem Hernn ein Neues Lied, além de composta para coro duplo, possui a mesma exigência técnica, e termina com uma fuga vibrante que exige uma agilidade vocal única; Jesu meine freude e Komm Jesu, Komm possuem doçura e efeito nos trechos dramáticos altamente expressivos, exigindo do cantor uma sensibilidade harmônica única. Os motetos de Bach não são para qualquer um e o English Baroque Soloists o fazem de maneira exemplar. O próprio Gardiner assume abaixo que a exigência vocal é acrobática:


Ouça o álbum no spotify ou no deezer:


E aí gostou do English Baroque Soloists? O Coro de Câmara da Associação de Canto Coral fará a Cantata 147 de Bach no mês de Dezembro. Fique atento aos eventos do blog para não perder a oportunidade de ouvir as obras do grande mestre ao vivo. Deixe um comentário com sua opinião!

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