Resenha Coral - Vox Brasiliensis - Música Sacra do Brasil

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Setembro é o mês da música colonial brasileira. A partir do disco Música Sacra do Brasil, do Coro e Orquestra Vox Brasiliensis, a postagem de hoje reverencia um gênero musical que, apesar de seu grande valor cultural, ainda é pouco executado no Brasil.

Arte no Brasil Colônia

O Brasil Colônia é repleto de cultura tanto na literatura como nas belas artes e na música. Atualmente, a política do país pouco se preocupa com esse legado, vide a quantidade de museus e bibliotecas que queimam pela ausência de investimentos, mas pesquisadores, intelectuais e artistas continuam na luta para manter essa memória que é patrimônio da humanidade.
As cidades do Rio de Janeiro, Ouro Preto, além de todas as cidades da Estrada Real em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, do Norte Fluminense, como Campos dos Goytacazes, passando pelas cidades históricas da Bahia, até Pernambuco são os principais sítios arqueológicos onde podemos ver a maior parte dessa cultura viva e pesquisar sobre a arte do período colonial.
Teto da Igreja de São Francisco em Ouro Preto
Aleijadinho e Mestre Ataíde são expoentes na arquitetura, escultura e pintura, mas muitos outros viveram no país neste momento como Antônio Simões Ribeiro, Belchior Paulo, Carlos Julião, Domingos da Costa Filgueira, João Nepomuceno Correia e Castro, Manuel Dias de Oliveira (quase homônimo do compositor do mesmo período) e muitos outros. 
Na música, temos como figura maior José Maurício Nunes Garcia, mas outros compositores não ficam devendo. Com produção de igual importância, temos Damião Barbosa de Araújo, José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, Manoel Dias de Oliveira e muitos outros. 90% da produção musical deste período é sacra e possui coral na sua formação com acompanhamento de orquestra e/ou órgão. 
Entre esses nomes, ainda inclui-se uma ampla produção anônima de alta qualidade que é alvo de pesquisa incessante tanto na atribuição de sua autoria, local e situação na qual foi elaborada. São mais de trezentos anos de produção que muitos brasileiros ignoram e que, para que tenhamos consciência histórica, precisam ser re-executadas constantemente. 
Profeta Ezequiel - Escultura de Aleijadinho no Santuário de Bom Jesus de Matozinhos - Congonhas - MG

Coro e Orquestra Vox Brasiliensis

O Coro e Orquestra Vox Brasiliensis foi fundado pelo flautista Ricardo Kanji. É natural de São Paulo e sua produção é voltada para a música brasileira do período colonial. 

Álbum - Música Sacra do Brasil

O álbum se inicia com uma das principais descobertas da música brasileira: Matais de Incêndios. A obra é uma das poucas evidências de produção coral secular brasileira do período colonial. Escrita para quatro vozes e acompanhamento, mostra um Brasil próximo da música renascentista europeia. A interpretação de Kanji, com a adição de percussão e alaúdes, é notável. Tem uma sonoridade de música antiga que me agrada muito. 
O disco segue com composições anônimas com sonoridade próxima a da música renascentista. Donec Ponam de José Alves tem um trecho que lembra J. S. Bach. Villa-Lobos nas Bachianas Brasileiras se aproveita do mesmo tipo de sonoridade. É improvável que José Alves tivesse acesso à obra de Bach, que foi ressuscitada apenas no século XIX, mas mostra uma prática comum no contraponto tanto de compositores europeus como brasileiros. 
Asperges Me já possui trechos em gregoriano mostrando que, no período colonial brasileiro, o canto gregoriano também tem sua importância como legado das práticas musicais da Igreja Católica Romana. 
O gênio de José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita também é evidenciado na Benção da Missa para a Quarta-feira de Cinzas. Já o de  José Maurício Nunes Garcia fica na sua obra orquestral: a Abertura em Ré. Sua obra vocal, que é muito mais ampla, também é reverenciada em Tota pulchra es Maria e Dies Sanctificatus.
Ouça o álbum no deezer ou no spotify:
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A música colonial brasileira é nosso patrimônio e precisa ser reverenciada sempre. Como um reflexo do "complexo de vira-lata", muitos consideram essa produção inferior. Alguns cantores costumeiramente se recusam a cantar legando ao colonial um lugar subalterno perante a obra de compositores europeus. A falta de comprometimento, tanto de certos cantores como de regentes, deixa as execuções aquém do que o repertório merece. Europeus já fazem muito bem o repertório clássico e dificilmente serão superados. Bach, Beethoven, Brahms, Schumann não deixarão de ser alemães; Monteverdi, Donizetti, Bellini, Verdi e Puccini não deixarão de ser italianos; Berlioz, Debussy, Poulenc não deixarão de ser franceses. Cabe ao brasileiro reconhecer suas raízes e assumir protagonismo na execução do repertório colonial, de modo a que se torne um país de referência na música de concerto. Bem aventurados são aqueles que, mesmo diante de tantas intempéries, conseguem um trabalho de música colonial de alta qualidade. Parabéns ao maestro Ricardo Kanji!

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