Coral Unifesp: Os Afro-Sambas - Religiões afro-brasileiras e música coral brasileira

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Engana-se aquele que acha que o Brasil não tem vocação para o canto coral. Nossos gêneros são facilmente aplicáveis à formação e, em muitos casos, arrisco dizer que ficam melhores do que nas versões originais. Os Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, na minha opinião, é um desses casos. Hoje a resenha coral é sobre sincretismo religioso na música coral brasileira partindo do álbum Os Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, gravado pelo Coral Unifesp.

Os Afro-Sambas

Os Afro-Sambas é um conjunto de composições feitas por Baden Powell em parceria com Vinícius de Moraes. A inspiração foram os sambas-de-roda, os pontos de candomblé e os toques de berimbau da Bahia. O álbum original foi gravado em 1966, mas a gravação mais famosa é a de 1990 de Baden Powell com o Quarteto em Cy, revelando a vocação vocal dos Afro-Sambas. 
As versões de Baden Powell possuem ampla improvisação ao violão e o virtuosismo imprimido gera uma riqueza tímbrica que só o violão nas mãos de Baden possibilita, revelando a afinidade que o brasileiro tem com o instrumento. As belas melodias dos estribilhos geram impacto imediato no ouvinte.
O Coral Unifesp gravou o álbum Afro-Sambas em 2009 e foi feliz na escolha dos arranjos e na maneira de executá-los, aproveitando a beleza das melodias e usando percussão pertinente ao gênero, dando movimento às músicas e trazendo o caráter afro dos atabaques e afoxés. A mistura das vozes e o timbre de cada naipe são leves e agradáveis de ouvir.
Destaque para as três últimas faixas, Canto de Ossanha, Canto de Xangô e Berimbau.

Religiões afro-brasileiras e música coral

A música brasileira possui grande influência das religiões afro-brasileiras. Temos o exemplo do samba e todos os seus subgêneros, do jongo, da capoeira, do maracatu, do coco, do carimbó, e uma lista inacabável de muitos outros gêneros e subgêneros que a cada leitura descubro.
Entretanto, no ambiente coral é sempre perigoso adotar esse repertório pelo grande preconceito que impera perante ele. Sempre que recebo uma música, ou um arranjo, de um compositor, vem com a seguinte recomendação: "cuidado com os fundamentalistas" (fundamentalistas para não usar um termo ainda mais pejorativo).
O cantor de coro precisa entender que o fato de executar certo repertório não significa que deva acreditar no que ele prega, além do mais, as letras ligadas à umbanda e ao candomblé normalmente são fantasiosas e pouco tentam converter os que cantam e ouvem. Tratam na maior parte da beleza de seus santos, suas estórias e a maneira que vivem e conduzem suas escolhas. 
A preocupação do ouvido, mesmo que cético ou ateu, deve ser estética. Ouvimos essa música pois se trata de obra de arte e a experiência musical é inerente à humanidade. Esta maneira de ouvir deve ser aplicada à música de qualquer religião, sem preconceitos, de modo que possa extrair toda a beleza de sua arte.
Em tempos de intolerância religiosa, cantar o repertório de matriz afro-brasileira inspira o respeito e a valorização de seus seguidores. Quanto mais for executado, melhor.

Ouça o disco no Deezer e no Spotify:



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